sexta-feira, 20 de abril de 2012

Vida de um homem: Francisco de Assis

"Ao bispo Guido de Assis, que o aconselha paternalmente a abrandar a conduta demasiado rigorosa da irmandade ('Vossa vida me parece dura e áspera, pois não possuís nada neste mundo'), Francisco responde: 'Senhor, se tivéssemos bens, precisaríamos dispor também de armas para defendê-los. É da riqueza que provêm discussões e brigas, e assim se impede de muitas maneiras tanto o amor a Deus quanto o amor ao próximo. Por isso não queremos possuir nenhum bem material neste mundo'. Francisco acaba por aqui; não acrescenta o fácil corolário: 'Vós também deveríeis mudar'. No projeto do santo - outro ponto a ser ressaltado - é apenas pelo exemplo positivo que se pode induzir alguém a mudar e se corrigir; pelo exemplo, mais do que pelas palavras, as quais, de qualquer forma, nunca devem soar como crítica ou acusação, mas apenas como fraterna exortação de igual para igual." (página 62)

Bem, este post será o mais fácil e o mais difícil, igualmente. Um dos melhores presentes recebidos. Minha filha me deu mais que isso: ela me deu um "abrir os olhos para o mundo". Chiara Frugoni, historiadora italiana, conta neste livro a mais bela história que pode existir. A vida de Francisco de Assis. Homem de fé absoluta em Jesus Cristo, que parte em busca da paz interior pelo caminho da simplicidade, da fé sem dogmas. Amou a Deus e a Jesus sem barreiras, da maneira mais profunda que um ser humano já amou: seguindo seus passos e ensinamentos. Em essência um homem com apenas uma missão... viver da fé e pela fé por Deus e toda a sua criação. Mais alguns trechos do livro:

"Quanto a si, admitia com franqueza: 'Mesmo num momento de tentação ou de abatimento, sei que me basta ver a alegria de meu companheiro para me recuperar da crise e reconquistar a alegria interior e exterior'.
É assim que Francisco amava a pobreza, nunca separada da alegria. Sua pobreza, aliás, é uma pobreza voluntária, libertadora, que torna o homem espiritualmente imune à sede de domínio e posse, à violência, aos desejos que se impõem como necessidades, às obrigações da vida cotidiana. A pobreza voluntária é liberdade física - obriga a andar constantemente - mas é sobretudo liberdade mental: permite ouvir realmente as palavras do Evangelho, permite amar sem reservas." (página 71)

"Referiam-se às regras de São Bento, santo Agostinho e são Bernardo, que prescreviam esta ou aquela outra norma a fim de levar uma vida religiosa e bem regrada. Francisco ouviu a proposta (...) 'pegou pela mão' Ugolino - o típico gesto de cortesia os romances de cavalaria - e o levou perante a assembleia, onde apresentou uma enérgica recusa:

Irmãos meus, irmãos meus, Deus me chamou para percorrer o caminho da simplicidade e o mostrou a mim. Não quero, portanto, que nomeiem outras regras, nem a de santo Agostinho, nem a de são Bernardo ou de são Bento. O senhor me revelou ser Sua vontade que eu fosse o último louco da terra: esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa própria sabedoria e ciência!" (página 119)

"Em abril de 1226, foi enviado a Siena para outros tratamentos; ali se sentiu muito mal, soltou golfadas de sangue e os companheiros tiveram certeza de que ia morrer. Pediram-lhe uma lembrança e um adeus, e Francisco ditou um Testamento de poucas palavras, exausto pela doença e pelo sofrimento: 'Em memória de minha bênção e de minha última vontade, que os frades sempre se amem e queiram bem uns aos outros e respeitem sempre a santa Pobreza, nossa senhora. Sejam sempre fielmente submissos aos prelados e a todos os clérigos da santa mãe Igreja'. Para Francisco, na escala dos valores, em primeiro lugar vinham o amor caridoso e o estado de pobreza: apenas assim os frades poderão sempre receber prontamente o deserdado, o pobre, o leproso, e partilhar com facilidade e afeto sua vida, porque já é a deles. Depois se preocupa com os irmãos, recomenda obediência à Igreja para que não caiam nas rígidas malhas de sua estrutura e de seus preceitos." (página 160)

Não há como não imaginar um mundo bom, com um Ser Humano como Francisco.

Autor: Frugoni, Chiara
Tradutor: Carotti, Federico
Baseado vida/obra Francisco de Assis
Editora: Companhia das Letras
ISBN: 9788535918656
33,00

domingo, 15 de abril de 2012

O dono da Lua

Autores de livros infantis merecem todo respeito e reverência possíveis, na minha opinião. São eles que formam futuros leitores, são os responsáveis por aquela fisgada que um belo livro infantil, recheado de imaginação e mensagem, pega uma criança e, futuramente, um adulto.
Ao receber O dono da Lua, voltei à emoção infantil dessa maravilhosa fisgada, a começar pela linda e sensível dedicatória:
"Renata,
que ao olhar para o céu, à noite, você se lembre de Nick e de sua aventura em busca do dono da Lua."
Pronto. Minha imaginação voou pelo céu à procura da Lua e seus mistérios.

Nick, o pequeno curioso, um belo dia (ou noite) descobre que a Lua desapareceu do céu. Percebeu que não era época de Lua Nova e chegou à conclusão de que deveria ter acontecido algo sério com seu dono. Aí começa sua aventura na busca dessa pessoa que ele acreditava tomar conta da Lua e suas fases.
A primeira atitude de Nick foi procurar seu professor de Geografia, o qual ele considerava bastante inteligente. Mas o professor o decepcionou, com toda aquela conversa de que não existe um dono da Lua, todo aquele falatório sobre satélite, órbita, fases etc. Nick, então, parte sozinho em busca do dono da Lua.

Ronize Aline já começa o livro da melhor forma que um autor infantil pode começar. Com uma belíssima mensagem. Um pequeno trecho do início:

"Você já reparou como 'dono' é uma palavra feia? Significa que alguém tem a posse de alguma coisa e que, por causa disso, pode mandar nos outros.
Por exemplo, o dono da bola. Sem ele não tem jogo. Quando chega ao campo, vai logo dando ordem, escalando os times, mandando aqui, mandando acolá. E, se fica irritado, pega a bola e acaba na hora com a brincadeira, deixando todo mundo chupando dedo.
Mas há um caso pior: das pessoas que se consideram donas de coisas que não têm dono e que, por isso mesmo, pertencem a todos.
É o caso do dono do 'pedaço'. Esse pedaço pode ser a rua, o clube ou o parquinho da praça. Ali só entra quem ele quer."

O dono da Lua ainda tem outra importância mais que especial: as ilustrações de Martha Werneck. Martha consegue traduzir em lindas imagens cada sentimento de Ronize e Nick. Conclusão: perfeito casamento palavra-imagem. Que venham muitos sonhos, muitos céus e luas e crianças curiosas.

Belíssimo livro para crianças, bem como para a gente grande que ainda deseja sentir a tal fisgada infantil de um livro.


Autor: ALINE, RONIZE
Ilustrador: WERNECK, MARTHA
Editora: ESCRITA FINA
Assunto: INFANTO-JUVENIS - LITERATURA INFANTIL

ISBN: 9788563877468


28,00