quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sartre

Jean-Paul Sartre


"Não importa o que fizeram de nós, mas sim o que nós fazemos com o que fizeram de nós."



"Ainda que fôssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa própria passividade seria uma forma de ação."


"Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo."

domingo, 24 de junho de 2012

Pandemonium

Mais um presente para a literatura brasileira. Vou começar com os comentários de dois artistas que admiro muito:

"Viver e pensar a vida ao mesmo tempo pode ser, sim, um pandemônio. Especialmente para quem se coloca no limiar, na beirinha do abismo e olha para ele.
Assim é Lemok, personagem de Zeca Fonseca. A partir de seus atos e pensamentos, constatamos a crueza da vida, 'nos intervalos da emoção', como diria Alice Ruiz. Mas, para além da vida nua e crua, há alguém aqui que vislumbra algo que poderia ser melhor. Por isso, algo de poesia vai escorrendo junto com toda a lama. Viver é bom?" (Zélia Duncan)

"O poeta inglês William Blake diz que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Lemok, o personagem narrador de Pandemonium, talvez não encontre um palácio ao final de sua jornada, mas sem dúvida trilha a passos largos os caminhos e descaminhos do excesso. Ou dos excessos, em seu caso. E por mais que beba todo tipo de álcool barato, aspire as mais tortuosas carreiras de cocaína e se embrenhe por intrincadas e sinuosas vaginas esfíngicas, consegue sempre manter à vista uma bússola que lhe indica algum destino possível. A agulha ereta dessa bússola é a própria narrativa de Zeca Fonseca, vigorosa como um pontapé. [...] A literatura de Zeca Fonseca não faz concessões ao politicamente correto ou ao literariamente palatável. Como Dante, ele sabe que uma passagem pelo inferno é inevitável de vez em quando e que uma prosaica desilusão amorosa pode desencadear as mais terríveis e desesperadas consequências afetivas e estéticas. Zeca Fonseca tem a consciência de que no grande e barulhento sertão de uma metrópole, as veredas são os canos de esgoto." (Tony Bellotto)

É isso. Lemok é um personagem confuso, que encontra no álcool e nas drogas uma fuga para essa confusão que é sua vida. Por outro lado, cada vez mais percebe dentro da própria alucinação o buraco que vai caindo, sem conseguir sair desse ciclo. Vai se distanciando das pessoas enquanto procura um caminho para se encontrar, se conhecer. Jornalista frustrado, procura desculpas para estar na lama que se encontra. Seguimos a leitura na torcida de que ele encontre o homem sensível e inteligente que há por trás de tudo. Perde família e amigos com a mesma facilidade que encontra drogas e mulheres. Vive para analisar seus erros e luta do seu jeito para acertar uma hora, mas não é fácil. A escória humana é muito clara para ele em seus devaneios mais íntimos. Como ele diz, "respiramos, mas as nossas vidas são meros projetos de morte".

Uma leitura reflexiva sobre o submundo humano. Zeca Fonseca traz à tona toda espécie de sentimentos para o leitor, desde repugnância pela nossa espécie até a esperança de encontrar uma saída no fim do túnel. Além disso, é gratificante perceber a mudança de ritmo que a literatura brasileira moderna traz. Nossas obras merecem todo reconhecimento possível.

Trechos do livro:
"O dinheiro mexe com a moral do indivíduo e apaga sua chama vital.
Só pessoas de caráter muito reto, quase neuróticas, conseguem se preservar totalmente incorruptíveis.
O resto se vende assim que tem uma boa chance; nascem, crescem, e ao mesmo tempo vão se contaminando.
Estudam firme para tornarem-se importantes e um dia estarem aptos a serem corrompidos pelo sistema viscoso e vicioso. Estas pessoas não se sentem desonestas, integram um complexo esquema de corrupção a serviço da imoralidade humana."

"Tá todo mundo na mesma merda; uns pisando sobre os outros para tentar escalar o ponto mais alto da grande montanha fedorenta onde o poder fermenta. [...] Este é o mundo que vivemos. Alguém sempre se dá bem quando alguém se fode."

"Seres medíocres fazem cada vez mais sucesso, neste mundo atual, enquanto mentes brilhantes são relegadas ao ostracismo, vítimas de um sistema que nivela todos por baixo. Sentimos uma necessidade crescente de substituir o desejo pela satisfação."

É isso aí, Lemok. Obrigada, Zeca Fonseca.

(foto da capa: Paulo Moska)

Autor: FONSECA, ZECA
Editora: FACES EDITORA
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - ROMANCES
34,90