sábado, 29 de setembro de 2012

A sombra do vento

Começando pelo que costumo deixar para o final:

"Meu pai e eu morávamos num pequeno apartamento da rua Santa Ana, perto da praça da igreja. O apartamento ficava bem em cima da livraria especializada em edições para colecionadores e livros antigos herdada de meu avô, uma loja encantada que meu pai confiava que algum dia passasse às minhas mãos. Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos."


"A sombra do vento
JULIÁN CARAX

Nunca tinha ouvido mencionar aquele título ou o seu autor, mas não liguei. Minha decisão estava tomada. De ambas as partes. Peguei o livro com muito cuidado e folheei-o, deixando que as suas páginas esvoaçassem no ar. Liberado de sua cela na estante, o livro exalou uma nuvem de pó dourado. Satisfeito com a escolha, refiz meus passos no labirinto, levando meu livro debaixo do braço, com um sorriso impresso nos lábios. Talvez a atmosfera enfeitiçada daquele lugar se tivesse incorporado a mim, mas tive certeza de que aquele livro estivera me esperando ali anos a fio, provavelmente desde antes de eu nascer."

E assim Daniel Sempere me conquistou. Um dos muitos livros que a livraria onde trabalhava me emprestou, assim que terminei A sombra do vento tive certeza de que queria aquele livro para mim, para sempre. Corri para comprá-lo e fui muito mais feliz naquele momento. Quando terminei, fui à procura de outros títulos do autor, mas infelizmente este era o único até então publicado no Brasil. Hoje conseguimos ler Zafón em vários títulos e dou graças a isso.

O menino Daniel recebe de seu pai de presente de 10 anos a visita a um lugar mágico. O Cemitério dos Livros Esquecidos. Na Barcelona de 1945 ele conhece Julián Carax e seu livro, A sombra do vento. Sua vida muda completamente a partir daí e Daniel conhece a amizade, o amor e o mistério. Ele parte em busca de outros exemplares do autor e descobre que a vida de Julián é muito mais misteriosa do que sua obra. Toda a aventura do livro gira em torno da vida desse autor, suas obras, sua família, amigos e inimigos. 

Daniel cresce com ele. E todos nós também. Fermín, figura inteligentíssima que Daniel encontra vivendo como mendigo e o resgata para trabalhar com ele e seu pai na livraria é o melhor personagem que já conheci. Quem tiver o prazer de ler A sombra do vento verá em Fermín um universo dentro de um só personagem. Ele se transforma no companheiro de Daniel em sua busca incessante sobre o paradeiro de Julián. Inesquecivelmente belo, cativante, inteligente e maravilhoso livro.



Autor: RUIZ ZAFON, CARLOS
Tradutor: RIBAS, MARCIA
Editora: SUMA DE LETRAS BRASI
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES
46,90

domingo, 16 de setembro de 2012

Clarice,

Benjamin Moser, jornalista norte-americano, escreve a vida de Clarice de maneira intensa e apaixonada. Ele viajou para todos os lugares onde a escritora viveu, conheceu e entrevistou muitas pessoas que ajudaram a fazer desta biografia uma obra completa da vida dessa escritora fascinante, controversa, brilhante.

Em alguns momentos do livro, Benjamin conta como escritores brasileiros eram unânimes ao afirmarem o ritmo diferente, universal da escritora. Acredito ter sido essa a fórmula para o sucesso de Clarice, além, é claro, da forma intensa e interna de formar seus personagens.

Clarice usava todo o seu universo interior, era sua forma de expressar e se ver realmente livre. Por isso a vemos em cada Ângela ou Laura que lemos.

A maneira como enxergamos a mulher e escritora Clarice Lispector cai por terra ao lermos sua biografia. Percebemos que esse vastíssimo mundo que ela coloca em seus livros é absolutamente interior. Sua vida, desde a concepção, é sofrida, cheia de angústia. A morte da mãe vem a todo momento carregada de culpa. Essa falta permeia sua vida. Suas irmãs tentaram preencher o papel materno na vida da pequena Clarice, mas não foi suficiente. Sua vida de mulher de diplomata a levou para muito longe da sua terra, o Brasil, e isso causou muita depressão para ela. A vida era o extremo oposto do que clamava sua alma. Jantares, as outras esposas, a vida considerada fútil para Clarice foram afundando seu ser e a única válvula de escape era o papel. Que bom pra nós, ávidos de liberdade interior!

Pequenos trechos:

Sobre seu interior: "Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."

Sobre as mulheres dos diplomatas: "Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso embora sem jamais fazer maldade. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar mais gentil e delicado que eu posso achar. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável como neste mês de viagem. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Mas por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil."

Sobre seus sentidos: "Veja que nunca te disse como escuto música - apoio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos."

Autor: MOSER, BENJAMIN
Tradutor: COUTO, JOSE GERALDO
Baseado vida/obra: LISPECTOR, CLARICE
Editora: COSAC NAIFY
Assunto: BIOGRAFIAS/AUTOBIOGRAFIAS/DIÁRIOS/MEMÓRIAS/CARTAS
29,90