domingo, 16 de setembro de 2012

Clarice,

Benjamin Moser, jornalista norte-americano, escreve a vida de Clarice de maneira intensa e apaixonada. Ele viajou para todos os lugares onde a escritora viveu, conheceu e entrevistou muitas pessoas que ajudaram a fazer desta biografia uma obra completa da vida dessa escritora fascinante, controversa, brilhante.

Em alguns momentos do livro, Benjamin conta como escritores brasileiros eram unânimes ao afirmarem o ritmo diferente, universal da escritora. Acredito ter sido essa a fórmula para o sucesso de Clarice, além, é claro, da forma intensa e interna de formar seus personagens.

Clarice usava todo o seu universo interior, era sua forma de expressar e se ver realmente livre. Por isso a vemos em cada Ângela ou Laura que lemos.

A maneira como enxergamos a mulher e escritora Clarice Lispector cai por terra ao lermos sua biografia. Percebemos que esse vastíssimo mundo que ela coloca em seus livros é absolutamente interior. Sua vida, desde a concepção, é sofrida, cheia de angústia. A morte da mãe vem a todo momento carregada de culpa. Essa falta permeia sua vida. Suas irmãs tentaram preencher o papel materno na vida da pequena Clarice, mas não foi suficiente. Sua vida de mulher de diplomata a levou para muito longe da sua terra, o Brasil, e isso causou muita depressão para ela. A vida era o extremo oposto do que clamava sua alma. Jantares, as outras esposas, a vida considerada fútil para Clarice foram afundando seu ser e a única válvula de escape era o papel. Que bom pra nós, ávidos de liberdade interior!

Pequenos trechos:

Sobre seu interior: "Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."

Sobre as mulheres dos diplomatas: "Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso embora sem jamais fazer maldade. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar mais gentil e delicado que eu posso achar. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável como neste mês de viagem. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Mas por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil."

Sobre seus sentidos: "Veja que nunca te disse como escuto música - apoio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos."

Autor: MOSER, BENJAMIN
Tradutor: COUTO, JOSE GERALDO
Baseado vida/obra: LISPECTOR, CLARICE
Editora: COSAC NAIFY
Assunto: BIOGRAFIAS/AUTOBIOGRAFIAS/DIÁRIOS/MEMÓRIAS/CARTAS
29,90
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