terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Giacomo

Tenho um diabo dentro de uma garrafa. É um diabo antigo, com quase quinhentos anos de idade, que pertence à família já há seis gerações.

Meu diabo é italiano de origem, embora as suas andanças pelo mundo o tenham transformado em um cosmopolita incurável.
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No entanto, é fluente em cento e doze línguas conhecidas e em outras tantas que os paleógrafos a quem levei as fitas não conseguiram classificar.
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Mede cerca de vinte centímetros, do chifre à ponta da cauda, e, visto de relance, imóvel dentro da garrafa, bem poderia ser confundido com um réptil conservado em formol.
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Vive na cristaleira da sala e diverte-se com os programas de tevê a que assistem os meninos. Por incrível que pareça, criou gosto por seriados japoneses. É também de se admirar que alguém com tamanha erudição se emocione com reprises de novelas, mas, que fazer? Meu demônio é um romântico inveterado. Um pobre-diabo, por assim dizer.
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Apesar da difícil convivência, confesso grande admiração por meu demônio de proveta. Ele possui uma mente vasta, enciclopédica, labiríntica. Recita de memória clássicos gregos e latinos, é um mestre da retórica e, por incrível que pareça, conhece a Bíblia de cabo a rabo.
É também um excelente contador de histórias. Tantos séculos de existência foram suficientes para supri-lo com um estoque aparentemente inesgotável de aventuras. Suas narrativas são repletas de reis, sacerdotes, feiticeiros, piratas, canibais, civilizações extintas, cidades submersas, tapetes voadores, óvnis, máquinas do tempo, amuletos, filtros de amor e toda sorte de coisas extraordinárias, demonstrando inegáveis qualidades de mercado. Nas mãos de um escriba inescrupuloso, meu diabo renderia dinheiro a rodo.
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Eis, portanto, a biografia autorizada de uma criatura que privou da companhia de grandes personalidades da História Universal e que acompanhou de perto todas as reviravoltas da humanidade nos últimos quatrocentos e setenta e um anos; alguém que atravessou mares, desertos e cordilheiras e que frequentou palácios, castelos, mansões, bibliotecas, labirintos, camarotes, cozinhas, adegas, porões, masmorras e lixeiras do mundo inteiro, sem jamais ter saído de uma garrafa de pouco mais de litro e meio de capacidade.
(Alexandre Raposo - Memórias de um diabo de garrafa)