quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Meia, meia ou meia?

Adorei isso! Compartilhando. :)

Excelente texto de Jansen Viana (site Recanto das Letras)

 Na recepção dum salão de convenções, em Fortaleza:   - Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.

- Da África, né?

- Sim, sim, da África.

- Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo. O mundo está cheio de   africanos.

- É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o   berço antropológico da humanidade...

- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.

- Desculpe, qual sala?

- Meia oito.

- Podes escrever?

- Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.

- Ah, entendi, meia é seis.

- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: A organização
   do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material:   DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
- Quanto tenho que pagar?

- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.

- Hmmm! que bom. Ai está: seis reais.

- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?

- Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?

- Isso, meia é cinco.

- Tá bom, meia é cinco.

- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.

- Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.

- Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.

- Pensei que fosse as 9:05, pois meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que
   começa?
- Nove e meia, assim, veja: 9:30

- Ah, entendi, meia é trinta.

- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel   que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está   hospedado?

- Sim, já estou na casa de um amigo
.
- Em que bairro?

- No Trinta Bocas.

- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?

- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.

- Não é meia boca, é um bairro nobre.

- Então deve ser cinco bocas.

- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis   ruas, por isso seis bocas. Entendeu?

- E há quem possa entender?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

As intermitências da morte

Imagine se um dia a morte resolve fazer uma greve, para mostrar às pessoas sua importante circunstância de existir.

Saramago consegue, em apenas uma obra, nos levar a vários recônditos da nossa alma. Este livro conta a história de um país que parou de morrer, por determinação da própria morte. Cansada de ser odiada e temida, ela resolve mostrar às pessoas o que é vive o caos de uma sociedade sem mortes. Famílias com doentes em estágio terminal, mães com crianças acidentadas, asilos cheios de idosos que não poderiam mais ceder lugar a novos idosos. Isso faz pensar na importância do ciclo da vida, na perfeição da natureza, ao ter para cada ser humano, sua hora de chegar e partir. O livro é cômico e trágico, daqueles que nos fazem rir e chorar na distância de uma página. Genial, como Saramago é.

Trechos que separei para postar:

"... Antes de prosseguirmos convirá esclarecer que o termo nojo, posto pelo épico na boca do infeliz gigante, significava então, e só, tristeza profunda, pena, desgosto, mas, de há tempos a esta parte, o vulgar da gente considerou, e muito bem, que se estava a perder ali uma estupenda palavra para expressar sentimentos como sejam a repulsa, a repugnância, o asco, os quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." (pág. 65)

A fábula da tigela de madeira:
"... e então perguntou, Que estás a fazer. O rapaz fingiu que não tinha ouvido e continuou a escavar a madeira com a ponta da navalha, isto passou-se no tempo em que os pais eram menos assustadiços e não corriam a tirar das mãos dos filhos um instrumento de tanta utilidade para a fabricação de brinquedos. Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tornou o pai a perguntar, e o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu, Estou a fazer uma tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô. Foram palavras santas. Caíram as escamas dos olhos do pai, viu a verdade a sua luz, e no mesmo instante foi pedir perdão ao progenitor e quando chegou a hora da ceia por suas próprias mãos o ajudou a sentar-se na cadeira, por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia fazer e o seu querido pai já não."

Parte da carta da morte aos cidadãos, por intermédio da TV, em rede nacional:
"...senhor director-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal, seria vir a público reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite,..."


Autor: SARAMAGO, JOSE
Idioma: PORTUGUES
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES
43,00