quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A confissão da leoa

"Preciso tanto de dormir! Não é descanso que procuro. Quero, sim, ausentar-me de mim. Dormir para não existir."

"De repente, rugidos, gritos e lamentos dissolveram-se no vazio, o mundo afundado aos despedaços: nada mais restava dentro dele. Para tanto esquecer é preciso não ter nunca vivido."

"Muitas vezes ele me dissera: só os humanos sabem do silêncio. Para os demais bichos, o mundo nunca está calado e até o crescer das ervas e o desabrochar das pétalas fazem um enorme barulho."

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr." (Provérbio africano)

"Para mim, Adjiru Kapitamoro (avô) tinha o viver da árvore: sendo chão, já era pertença do céu."

"Andei por abrigos extensos. Mas não encontrei sombra senão na palavra."

"Sábio é o pirilampo que usa o escuro para se acender." (Provérbio de Kulumani)

Bem, começar este post dizendo que Mia Couto é poesia em prosa da mais alta categoria é dizer mais do mesmo? Mas é exatamente o que ele é. Prosa poética personificada em Mia.

Para começar, a história tem dois narradores, um homem e uma mulher, em primeiríssima pessoa cada um e com trajetórias distintas porém entrelaçadas.

Há uma aldeia em Moçambique que está perdendo pessoas por causa de ataques de leões. O político local contrata um experiente caçador para resolver o problema, porém ele se vê envolvido em uma trama maior do que seu trabalho, trama que compreende questões externas, da aldeia e seus místicos moradores, e internas, que carrega dentro de si, em seu âmago.

O caçador, Arcanjo Baleiro é um dos narradores e Mariamar, moradora da aldeia, a outra. Alternando a visão de cada um em capítulos, vamos nos embalando nesta linda e triste história, com uma Moçambique se descortinando à nossa frente, com suas crenças, mística, problemas de ordem política, de gênero e religião. E, premiando tudo isso, a poesia do autor.

Autor: MIA COUTO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A garota que você deixou para trás

Quando minha filha me trouxe este livro e disse: "Mãe, lê que você vai adorar", absorvi a máxima "não julgar o livro pela capa", que no caso não era capa, mas sim o título, e peguei para ler. Não, não é a história de uma adolescente (garota) que foi abandonada pelo namorado em pleno baile (que você deixou para trás) que, traumatizada, resolve contar sua história de dor e solidão. Nada disso.

São duas histórias em uma. E com um intervalo temporal de quase um século. A autora, Jojo Moyes, escreveu um bonito romance que gira em torno de um quadro pintado por Édouard Lefèvre, artista francês, para sua bela mulher Sophie, pouco antes de estourar a 1ª Guerra mundial. Quando é convocado a servir, o quadro é a melhor das lembranças de Sophie, que sofre, junto com sua família, a invasão alemã em sua pacata cidade.

Mulher de fibra e coragem, Sophie nem imagina que sua história passará por tantas reviravoltas.

Século seguinte, a viúva Liv Halston vê sua vida absolutamente transformada, revirada e arrasada por causa desse mesmo quadro. A partir daí, as vidas de Sophie e de Liv estarão entrelaçadas de maneira irreversível.

Amor, guerra, muito sofrimento, esperança, dores absurdas, solidariedade, sentido de família, entendimento do outro. Tudo isso em um romance. Adorei, minha filha, obrigada!

Autor: MOYES, JOJO
Editora: INTRINSECA

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Só por hoje

Como sobreviver ao 'só por hoje'? A eterna luta contra uma doença incurável começa por aí. Como absolutamente todas as coisas na vida, só sabe e entende quem vivencia.

O livro conta a história de Tony, ex-editor de renome, que vê sua vida se desmantelar por causa da cocaína. Amores, amigos de infância, carreira bem-sucedida.

15 anos 'limpo' e Tony se vê envolvido com uma garota de programa viciadíssima e, por acreditar ter reencontrado o amor, procura seguir um dos passos do Narcóticos Anônimos e resolve estender a mão num lance perigoso, que pode o fazer ser arrastado de volta às drogas.

Romance de ritmo envolvente, cadenciado na medida. Julio Ludemir explora o universo das drogas e seu entorno, mostra o funcionamento, para o bem e para o mal, das salas do NA, clínicas de recuperação, sexo.

Com o texto narrado em primeira pessoa, seguimos esse caminho com Tony, sentindo suas angústias, desejos e frustrações, medos e esperanças.

Este é o primeiro livro adquirido na Flip, após assistir a uma palestra de Julio, em que ele conta um pouco de sua vida e de como viveu e pesquisou para dar vida a todos os personagens.

Um parágrafo:

"Marcamos encontro para o final da tarde do dia seguinte, o que, em sua opinião, seria o bastante para que fizesse uma avaliação do quadro de Laís. Se quisesse colaborar, o tratamento com certeza seria eficiente, pois uma das vantagens da dependência química como doença é que a próxima dose é uma decisão pessoal. Podemos dispor dos piores médicos do mundo e, no entanto, nos manter abstêmios. Por outro lado, nem mesmo o Prêmio Nobel de Medicina pode nos salvar quando não estamos dispostos a largar o canudo."


Autor: JULIO LUDEMIR
Editora: ROCCO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Flip - uma imersão


 Estar lá, no meio de tantos debates, mesas literárias, outras nem tanto, lançamentos de livros, resgate da infância com Bia Bedran, conversas com livreiros queridos, palestras sobre planos de livros e leitura foi como estar em outra dimensão, onde a cultura e os livros são discutidos, pensados e expostos em primeiro plano, fundamentalmente.

“Meu percurso literário é feito de leituras e releituras, sendo que as releituras são mais ricas do que as leituras.” Luiz Alfredo Garcia-Roza


 “Sou antes de mais nada um poeta que conta histórias.” Mia Couto

"Creio que uma forma de felicidade é a leitura." Jorge Luis Borges

"Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias." Mário Vargas Llosa

Pensar o livro é pensar em futuro, trazer ao mundo mentes criativas e inteligentes, é ponderar sobre o que 'pode ser'.










"Livro não enguiça." Millôr Fernandes

Festa Literária Internacional de Paraty, até a volta!