segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bisa Bia, Bisa Bel

Em meus estudos teóricos de literatura, encontrei um texto de Aristóteles que fala da diferença entre história e poesia (literatura), em que a primeira narra fatos ocorridos e a segunda aqueles que poderiam ocorrer, que podem vir a ser, e por conclusão dele, de natureza mais importante:

"Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser histórias, se fossem em verso o que eram em prosa), - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que de nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu." (Poét., IX, 50)

Esse vir a ser é marcadamente de fundamental importância e a literatura é o meio que proporciona isso. Ler abre mentes, desenvolve inteligências, proporciona sensibilidades e cria empatia.

Bem, mas por que eu estou aqui falando sobre Aristóteles e seu vir a ser? Porque ao reler Bisa Bia, Bisa Bel, percebi que foi minha primeira prova concreta desse pensamento aristotélico e, para além disso, revivi o impacto que causou Bisa Bia em mim, que a tornou inesquecível no meu coração infantil.

Bel é uma criança cheia de vida e, um dia, encontrou no meio das coisas de sua mãe uma foto de sua bisavó Beatriz, quando ainda criança. Ela se encanta com aquela menina que é sua bisavó e estabelece com ela, em seu interior, uma linda relação. Ana Maria Machado tem todo o merecimento por tantos prêmios com esse livro. Ela mistura passado, presente, futuro, valores do feminino daquela década de 1980, ditadura, perdas e ganhos, questionamentos de uma menina que pensa nos 'fatos ocorridos' e no que pode 'vir a ser'. 

Alguns trechos:

"...É que Bisa Bia mora comigo, mas não é do meu lado de fora. Bisa Bia mora muito comigo mesmo. Ela mora dentro de mim."

"Mas eu lembrei da história do gigante porque a gente podia contar a história de Bisa Bia assim: dentro do quarto de minha mãe tinha um armário, dentro do armário tinha uma gaveta, dentro da gaveta tinha uma caixa, dentro da caixa tinha um envelope, dentro do envelope tinha um monte de retratos, dentro de um retrato tinha Bisa Bia."

"E então eu soube, eu descobri. Assim, de repente. Descobri que nada é de repente. Dessa vez, a pesquisa do colégio não é só em livros nem fora de mim. É também na minha vida mesmo, dentro de mim. Nos meus segredos, nos meus mistérios, nas minhas encruzilhadas escondidas."

Bisa Bia, Bisa Bel é um livro que a gente vive, não apenas lê. 

Autor: MACHADO, ANA MARIA
Ilustrador: NEWLANDS, MARIANA
Editora: SALAMANDRA
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