quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Menino do Mato

Sobre literatura:

"Eu queria fazer parte das árvores como os pássaros fazem.
Eu queria fazer parte do orvalho como as pedras fazem.
Eu só não queria significar.
Porque significar limita a imaginação.
E com pouca imaginação eu não poderia fazer parte de uma árvore.
Como os pássaros fazem.
Então a razão me falou: o homem não pode fazer parte do orvalho como as pedras fazem.
Porque o homem não se transfigura senão pelas palavras.
E isso era mesmo."

"...Eu queria que minhas palavras de joelhos no chão pudessem ouvir as origens da terra."

"Visão é recurso da imaginação para dar às palavras novas liberdades?"

"Eu sustento as palavras com o silêncio do meu abandono."

"Escrever o que não acontece é tarefa da poesia."

"Eu só faço travessuras com palavras. Não sei nem me pular quanto mais obstáculos."

Terminei hoje esta pérola! Foram 48 horas de puro deleite, poesia líquida, aerada, certeira, perfeita! Manoel de Barros lançou este livro pela primeira vez em 2010, do alto de seus 94 anos, mas ainda com alma de menino, menino do mato.

Que as palavras desse poeta estejam sempre em nossas vidas, corações, sentidos. Que renasçam muitos Manoéis pelo mundo. Que a vida mostre pelas palavras a beleza do natural, irreal, imaginário.

Autor: BARROS, MANOEL DE
Editora: ALFAGUARA BRASIL


quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Rei do Inverno

Por Bruna Bonfeld

Bernard Cornwell, que é amigo de outro escritor muito conceituado, George Martin, da série Game of Thrones, tem talvez uma escrita mais envolvente que o último (tcharãn, joguei a polêmica, mas tenho o direito de expressar minha opinião rs). PS: No devido tempo irei falar da minha relação de amor e ódio com Game of Thrones, mas isso fica para um outro papo.

"O rei do inverno" é um romance baseado nas lendas e crônicas do lendário Rei Artur através da perspectiva de seu soldado mais fiel, o personagem Derfel. Apesar de ser um romance histórico, Bernard Cornwell se utiliza de algumas fontes históricas para dar maior embasamento à sua escrita. No final do livro, na "Nota do autor". Cornwell explica a imprecisão das fontes sobre a existência desse Rei Guerreiro que comandou incríveis vitórias contra a invasão saxã no final do século VI d.C; além de dar dicas sobre onde na narrativa ele se utilizou mais da imaginação do que da história propriamente dita.

Na obra "De Excidio et Conquestu Britanniae" do autor Gildas, uma das fontes das quais Bernard Cornwell se utiliza para falar sobre um período conturbado de invasões saxãs na Britannia, hoje conhecida como Inglaterra, essas batalhas são descritas, mas não menciona o Rei Artur. Apesar dessas divergências, nos sentimos completamente impelidos para a história ficcional-mas-com-fundo-de-verdade do autor. Tem de tudo: guerra, romance, drama, religião... pode agradar realmente a todos os tipos de leitores.

Uma leitura associada que fiz há bastante tempo de "As Brumas de Avalon" (que também pode ter uma resenha mais para frente), não deixa claro o conflito Cristianismo X Paganismo que existia na Idade Média.

Neste livro vemos o paganismo como forma cultural intrínseca nas pessoas da época, diferentemente de "As Brumas de Avalon", na qual Morgana, irmã de Artur, trava uma guerra praticamente perdida contra os cristãos desde o primeiro livro de quatro.

Impossível não torcer por Artur desde o início. Ele é o típico herói das histórias épicas, guerreiro, valente, com moral, diplomático, bem apessoado e inteligente. Também é impossível não sentir empatia por Derfel, pois o personagem, apesar de ter vivido em uma época muito mais remota se apaixona, luta, erra, volta atrás em decisões, se culpa, enfim, vive dilemas reais de pessoas boas de coração. Temos portanto os papéis de "vilão/mocinho" bem delimitados.

Para entender ainda mais essa história e esse universo é interessante ler textos paralelos, principalmente e obviamente sobre as lendas do Rei Artur, mas também sobre Idade Média. Se eu puder dar uma indicação de um livro geral sobre Idade Média, de leitura agradável e acessível inclusive para leigos, indicaria "A civilização feudal" de Jérome Baschet.

Espero ter conseguido deixá-los com vontade de ler esse livro, pois realmente vale a pena e já estou ansiosa para ler o segundo da saga: "O inimigo de Deus."

Coleção: CRONICAS DE ARTUR, 1
Autor: CORNWELL, BERNARD
Editora: RECORD

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...


Marina Colasanti
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ler devia ser proibido

- Guiomar de Grammont

“A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.”

terça-feira, 28 de abril de 2015

Se eu ficar

Por Bruna Bonfeld

"Se eu ficar" gerou uma série de sentimentos contraditórios em mim. Tentei ler uma vez e não consegui passar das primeiras páginas. Apesar de enxergar potencial na história não me senti cativada pelo livro, exatamente como tinha acontecido com "Morte Súbita". Como sei que a gente nunca lê o mesmo livro duas vezes resolvi dar mais uma chance. 

Os fãs do livro provavelmente me chamariam de insensível, mas eu demorei bastante para me encantar com a personagem Mia. 

Mia, adolescente tinha uma vida normal. Pais, irmão, avós, tios, primos, um namorado mais velho integrante de uma banda de rock e uma melhor amiga em quem podia confiar. O que diferenciava Mia de outras adolescentes da sua idade era o fato de ser ligada a música clássica e ser violoncelista (artista que toca o instrumento violoncelo). Tudo estava indo relativamente bem, tirando alguns problemas adolescentes ocasionais, até que Mia e sua família sofrem um terrível acidente de carro, que mata seus pais e irmão mais novo e que a deixa em coma. 

A narração acontece na forma dos pensamentos da Mia enquanto estava em coma, sobre lembranças do passado e questionamentos sobre um futuro sem a sua família caso ela resolvesse ficar. A discussão central do livro é a reflexão sobre alma e corpo e até que ponto eles se separam e o quanto de poder Mia teria, enquanto alma, para permanecer viva, se essa escolha seria realmente dela. Sabe aquela polêmica sobre quando uma pessoa está em coma, sem previsão para acordar e sem alteração no seu quadro clínico e ai cogitam (médicos e família) de desligarem os aparelhos? Em nenhum momento a família de Mia pensa nessa possibilidade, mas é uma questão que poderia muito bem ser discutida a partir da leitura desse livro. 

Lendo o que eu mesma estou escrevendo me sinto completamente fascinada por essa história, porém confesso que demorei para entrar de cabeça nela, pois a autora vai liberando aos poucos as informações sobre a vida de Mia antes do acidente, o que faz com que a princípio você não sinta muita empatia por essa garota "introspectiva e solitária como seu violoncelo" (pensamento dela), pelo menos essa foi minha percepção inicial. Como gosto de emoções fortes, as vezes ficava um pouco sem paciência para essa demora em demonstrar os sentimentos da personagem.

Enfim, o fato é que aos poucos fui me envolvendo, envolvendo, envolvendo e quando vi já não conseguia mais largar esse livro. 

Na edição dessa capa ainda tem entrevista com os atores escolhidos para a adaptação do cinema, que eu ainda não vi, e um capítulo do livro "Para onde ela foi", que seria uma continuação. Não consegui ler, não quis ler, já que estava completamente embevecida pela história, por aquela história unicamente e não pude deixar de me perguntar o que eu faria no lugar de Mia. 

O que Mia fez? Ela escolheu ficar? Vocês terão que ler pra saber. 

Autor: FORMAN, GAYLE
Editora: NOVO CONCEITO

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Para ler em silêncio

“No princípio, foi a palavra falada: para cumprir sua profecia, fez-se necessário eternizá-la.”

Para ler em silêncio (Bartolomeu Campos de Queiroz)

Tomei ciência, por meio da leitura, que um dia o universo fora um caos. E veio a palavra – faça-se a luz – para o dia e a noite acontecerem. E assim foi com a terra, os mares e mais o firmamento inteiro. A palavra realizou o que anunciava e transformou a desordem em beleza e movimento. E em sete dias tudo que a nossa palavra alcança nos foi dado de presente. E ainda agora e sempre, nos será permitido reinventar novas palavras na medida em que se torna impossível exaurir a harmonia misteriosa do universo.

Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar os desertos. E mais, escrever é dividir sobressaltos, explicitar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude.

Antes de iniciar meu trabalho, eu respiro o silêncio. No silêncio, leio, em mim, mais e melhor o que ainda está por dizer. O universo é um grande livro aberto e sem texto. Mas como a penumbra, ele se mostra sem se revelar. Ele me anuncia sobre todas as coisas. Desde o antes até o depois. Fala do visível e do invisível, do doce e do amargo, da terra, água, fogo e ar. É um livro que consente tantas leituras quantos são aqueles que vivem nele e têm olhos de escutar. Cada escuta acorda uma suspeita. Mesmo assim sendo, não esgotamos os sentidos que dormem na palavra. O universo não envelhece; ele se rejuvenesce, e sempre pela palavra.

Legendar o universo, eu bem sei, é o primordial ofício humano. Não se resta calado diante de sua desmedida sedução. E sei mais: o olhar acaricia apenas a superfície das coisas. É preciso atravessar as cascas e buscar batizar o ainda intocável pelo olhar. Para tanto, há que libertar a fantasia para que ela faça seu percurso até o “dentro” e derrame a luz da palavra. Só pela fantasia é possível aproximar-se da intimidade das “coisas” e nomeá-las. Depois do olhar, só a fantasia contempla.

A literatura é feita da fantasia concretizada pela palavra. Sem se contentar com o real, a fantasia adjetiva o mundo tendo como estrela-guia a busca da beleza. A literatura confirma que “o belo é bom”. Conversamos com a beleza desprovidos da solidão. Não se está só quando o mais definitivo dos diálogos acontece: o real e o ideal conversam sucessivamente no silêncio de nós.

E o silêncio do mundo nos acorda perguntas que exigem cuidados aos respondê-las, sem ferir seus segredos, protegendo seu alumbramento. Perguntar é querer saber mais. E não se vive sem respostas. Se reinventadas, maiores riquezas se acrescentam ao mundo. Guiada pela fantasia, a literatura não nos rouba a voz, não nos deixa mudos. Liberdade, fantasia e palavra fundam a literatura.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Morte Súbita

Por Bruna Bonfeld

Posso dizer que "Morte Súbita" é um dos livros mais tristes que já li e sinceramente esse é um desfecho pelo qual eu não estava esperando. 

J.K. Rowling, autora também da saga Harry Potter (e quem me conhece sabe que é a minha preferida) e dos romances policiais "O Chamado do Cuco" e o "Bicho da seda" (também fantásticos), mostra toda a sua versatilidade ao escrever Morte Súbita. 

A história se passa no vilarejo de Pagford, uma cidadezinha dentro de Yarvil, mas não submetida a ela. Entre esses dois locais há também o bairro de Fields, no qual reside a população mais pobre e carente. Após a morte de Barry Fairbrother, membro fundamental do conselho de Pagford e grande defensor de melhorias para os moradores de Fields (local onde ele próprio nasceu), todos no vilarejo de Pagford são atingidos direta ou indiretamente. A vida dos personagens se intercruzam e as faces da hipocrisia social ficam bastante evidentes. 

Barry Fairbrother morre de aneurisma (uma veia de seu cérebro é rompida) subitamente, deixando até mesmo seus inimigos políticos desamparados. 

Vencer o início um tanto cansativo do livro, no qual você se vê enredado em questões de picuinhas sociais muito enraizadas, é essencial para descobrir um livro sensível e um enredo surpreendente.
Terminei o livro com aquela sensação de pesar e tristeza, mas também de felicidade ao me deparar com uma literatura tão envolvente.
Super indico! Nota 10! Emoticon smile

PS: Destaque para os personagens Khristal Weedon, adolescente e para seu irmão Robbie Weedon. Extremamente pobres, filhos de uma mãe viciada em heroína, Khristal para mim ganha destaque na sua luta comovente para ficar com o irmão de 3 anos Robbie, que é classificado como "criança em situação de risco" pelo Serviço Social de Pagford. Eles também são profundamente atingidos pela morte de Barry Fairbrother, por Barry ter sempre vontade de ajudar Khristal que também veio de Fields, mesmo bairro pobre que ele. Poderia escrever linhas e linhas sobre essa personagem maravilhosa, cheia de defeitos, mas honesta, batalhadora, sensível e inspiradora que é Khristal, mas como o livro tem diversos personagens com complexidades muito grandes, me resumo a essas poucas palavras e também para que quem for ler o livro consiga descobri-la aos poucos, como eu fiz.

Autor: ROWLING, J. K.
Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: Literatura Internacional - Romances

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O túnel

Um livro extremamente sensível e que trata da relação entre irmãos de maneira lúdica e atenta. A história é de um casal de irmãos muito diferentes; eles vivem em universos distintos e não conseguem se relacionar. Até o dia que a mãe interfere e convoca os dois para uma mesma tarefa.

No meio do caminho, encontram um túnel e o irmão resolve entrar para saber o que há do outro lado. A irmã, muito medrosa, acha melhor esperar na entrada do túnel. Como o irmão não retorna, ela cria coragem para ir atrás dele e saber o que aconteceu. Essa aventura transforma a relação dos dois, que se tornam cúmplices e amigos.

Lindo livro, com palavra e ilustração de criação de Anthony Browne, autor-ilustrador ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen.

"A irmã ficava dentro de casa, sozinha, lendo e sonhando. O irmão brincava lá fora com seus amigos, rindo e gritando, lançando e chutando, bagunçando e rolando."

Autor: BROWNE, ANTHONY
Editora: PEQUENA ZAHAR
Assunto: Infantil

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Reprodução

Um rapaz autodenominado "estudante chinês" é o único narrador desta história, de autoria de Bernardo Carvalho. Um livro de tirar o fôlego, em que conceitos, preconceitos, amores, amarguras, traumas de um único cérebro invade nossa mente.

O "estudante chinês" se preparava para uma viagem à China, para finalmente conhecer sua cultura de essência, segundo ele, mas é preso pela Polícia Federal por um suposto envolvimento com sua ex-professora de chinês que, segundo ele (sempre!!), tinha encontrado por acaso na fila de embarque do mesmo voo. A professora estaria levando uma pequena menina para voltar à terra natal e conhecer seus pais, mas é acusada de tráfico (de drogas? humano?). Como desaparece no meio da confusão com a criança, seu aluno é detido e aí inicia uma torrente de pensamentos, falas, crises etc.

Um personagem caricaturado como intelectual-político moderno: cheio de certezas, jorra-as pela internet nos blogs, redes sociais, um "pesquisador histórico" de Wikipédia, com conceitos preconcebidos tão esdrúxulos que chega a ser engraçado.

Leitura boa, irônica, crítica dessa nova leva de pensadores modernos de sofá, como diz a sabedoria popular. Literatura brasileira de alta voltagem, que nos mostra essa nova nossa tendência.

Autor: CARVALHO, BERNARDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Teatro dos lírios

Por Bruna Bonfeld:

Teatro dos lírios é uma pérola da literatura chinesa, da autora Lulu Wang. Recomendo para quem gosta de uma literatura romântica que foge completamente dos padrões esperados. 

Lian, a personagem principal, é uma menina sensível e inteligentíssima que vive o auge da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung, chegando inclusive a ir para um dos campos de reeducação para os "burgueses intelectuais capitalistas" com sua mãe, uma professora universitária de História. O livro é relativamente autobiográfico pois a autora também chegou a ir para um desses campos com sua mãe quando era criança. Além disso, Lian tem uma relação de amor e amizade profunda com Kim, uma menina da terceira casta que estuda na mesma escola que ela antes e posteriormente ao campo, que tem uma realidade social completamente diferente da sua, garota da primeira casta. 

O livro é uma crítica muito inteligente ao comunismo, mistura romance, amizade, relações parentais em uma China de um determinado período histórico. Muito bem escrito, nos transporta, nos envolve e nos faz enxergar para além da nossa própria realidade. 


Com certeza é um dos livros mais fantásticos que eu já li em toda a minha vida. Espero ler outro livro desta autora.
Ufa! rs


Autor: WANG, LULU
Editora: RECORD
Assunto: Literatura Internacional - Romance