sexta-feira, 19 de março de 2010

Leite Derramado...

As reticências são minhas. Este livro veio de longe, de Belém do Pará, onde uma querida amiga está morando e me enviou como empréstimo para que eu pudesse desfrutar de apenas dois dias de puro enlevo. Chico Buarque... De novo as reticências.
Um monólogo extraordinário, como não poderia deixar de ser. Um senhor centenário, em seu leito de hospital público, narra a quem estiver por perto sua saga familiar cadente.
Pra quem gosta de diálogos, já adianto que isso em nada vai alterar seu interesse pelo Sr. Eulálio. Conseguimos ler nas entrelinhas os diálogos, sua vida. Conseguimos, por sua descrição, conhecer as outras personagens intimamente. Oscilando momentos de lucidez e loucura, memórias falhas, repetidas histórias, ele vai nos revelando sua vida, seus preconceitos e ilusões. Não, gente, ele não é um mocinho ou herói, ou aquele velhinho maravilhoso que sempre tendemos a acreditar. Ele é humano, só isso. Cheio de defeitos e falhas e vícios.
E o título. Que título! Melhor resumo impossível. Ele chora, constantemente, sobre o leite derramado, que tanto nos dizem que não adianta mais.

Alguns trechos inesquecíveis:

"Mas, se com a idade, a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida."

"Dizem que desgraça atrai desgraça, e é bom que assim seja, os baques me seriam muito dolorosos se eu já não estivesse caído."

"O ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa."

"Se soubesse como gosto das suas cheganças, você chegaria correndo todo dia."

Autor: BUARQUE, CHICO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - ROMANCES
ISBN: 9788535914115
Postar um comentário