terça-feira, 3 de maio de 2011

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

Poucas vezes na vida me deparei com tanta prosa poética. Este livro é pura poesia dentro de um romance cheio de mistério, suspense, reflexão, amor e família. 
Esta é história de Marianinho, que volta da cidade para Luar-do-Chão para os preparativos do velório do avô, Dito Mariano, personagem morto mais vivo que já conheci em minhas andanças literárias. Neto favorito, não sonha nem em seus delírios mais profundos, a reviravolta interna que sua vida dará. A morte de seu avô Mariano será um pedaço de seu renascimento.


Para dar gostinho, pequenos trechos:


“A cozinha me transporta para distantes doçuras. Como se, no embaciado dos seus vapores, se fabricasse não o alimento, mas o próprio tempo. Foi naquele chão que inventei brinquedo e rabisquei os meus primeiros desenhos.”
"A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. (...) Cruzo o rio, é já quase noite. Vejo esse poente como o desbotar do último sol. A voz antiga do Avô parece dizer-me: depois deste poente não haverá mais dia. E o gesto gasto de Mariano aponta o horizonte: ali onde se afunda o astro é o mpela djambo, o umbigo celeste. A cicatriz tão longe de uma ferida tão dentro: a ausente permanência de quem morreu. No Avô Mariano confirmo: morto amado nunca mais pára de morrer."
"Em África, os mortos não morrem nunca. Exceto aqueles que morrem mal. A esses chamamos de ‘abortos’. Sim, o mesmo nome que se dá aos desnascidos. Afinal, a morte é um outro nascimento."
(Marianinho)


Um livro que precisa ser degustado, devagar, para sentir a poesia por dentro de cada frase.


Autor: COUTO, MIA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

ISBN: 9788535903430 
Preço: 49,50
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