terça-feira, 29 de maio de 2012

Crime improvável

Romance brasileiro situado em São Paulo, Crime improvável é uma leitura com ritmo leve e erotismo na medida. Luiz Carlos Cardoso conta a história de Filipe, um homem comum, pai de família, revisor num jornal durante o dia e vigia noturno à noite que se vê apaixonado pela cunhada temporã, uma Lolita Nabokovesca para ninguém botar defeito. Ela vem do interior, onde vivem seus pais, para estudar na capital paulista e vai viver na casa da irmã para tormento do cunhado.
Eles ganham intimidade quando Fi se envolve com um grupo de ufólogos fanáticos, que veem em quase todos um traço marciano ou seja lá de qual galáxia for. Ele e Diana se embrenham numa história de suspense e sexo sem que ninguém da família desconfie. Quanto mais ele entra no estranho jogo sexual extraconjugal mais peças (e figuras) vão aparecendo em sua vida. Mas seu desejo mais ardente é por Diana, a bela adolescente que o seduz em todos os aspectos.
O autor ainda consegue brincar com referências literárias as mais diversas. Filipe é leitor compulsivo e ensina à bela Diana a arte de saber mergulhar na leitura.

"Tenho grande implicância de que me tratem como João qualquer, mas assim tratado não sei reagir como João especial e me vem a sensação de ser inescapavelmente João qualquer. Como me conheço, fiquei neutro."

"Mas ali, naquele instante, o que me emocionava era vê-la projetada em Molly Bloom, certamente desenvolvendo um gosto literário estimulado por mim. Eu amava, amo a literatura também, e ter sido capaz de cultivar em alguém esse prazer, que afinal pode ser mais duradouro que qualquer outro, me enchia de orgulho altruístico.
(...)
Preciso ser honesto e reconhecer: esse impulso de posse corporal da moça queria sublimar-se em mim na forma de amor por sua alma que a literatura enobrecia. Sem amor pelo corpo, impossível seria o amor pela alma - alma no sentido de espírito, de intelecto, de feminilidade. E ainda assim, juro, senti palpavelmente que Diana repleta de Molly era criação quase minha em atrevida parceria com Joyce e até com Deus que eu negava e nego. Está confuso, sei, mas permitam-me de raspão tentar uma profundidade nesta altura da obra rasa. Além de que, "sentir palpavelmente" enquanto Diana se acomodava na cadeira da cafeteria, com a maravilhosa porosidade de suas coxas a oferecer-se, era uma experiência deflagradora da mais pretensiosa loucura."

Luiz Carlos Cardoso, somos todos gratos por mais uma obra brasileira de qualidade.

Autor: CARDOSO, LUIZ CARLOS
Editora: FICÇOES EDITORA
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - ROMANCES
ISBN: 9788562226076
39,90

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Paul McCartney - uma vida

Autoconfiança, ambição, amor à música e obstinação. Ao ler Paul McCartney - uma vida, essas palavras gritam nas entrelinhas e são o cerne do sucesso desse artista lendário.

Apaixonante por natureza, dono de um charme irresistível, ele chega ao topo mesmo após a dissolução dos Beatles e onde se mantém até hoje.

O livro de Peter Ames Carlin é envolvente. O autor, como ele mesmo diz, passou anos seguindo as pegadas de Paul e reuniu uma bela obra com depoimentos de vários amigos e profissionais do meio.

Desde a adolescência em família, Paul já exercia seu charme e confiança. Ao ser apresentado a John Lennon, rapaz mais velho e mais rebelde, ele soube impor seu talento e impressionou o novo amigo, com quem teve uma relação intensa e complexa.

Família:
"Há muitos anos, era apenas os quatro. Jim e Mary e seus dois garotos indisciplinados, Paul e Michael. Jim e Mary eram pais mais velhos do que o esperado. Ele já tinha passado dos quarenta quando Paul nasceu, e ela também chegara ao final dos trinta quando Michael entrou em cena, dois anos depois. Talvez isso, junto com algumas nuvens que os velhos MacCartney sabiam estar se formando no horizonte, fez com que eles valorizassem muito mais a vida em família. Além disso, o clã sempre foi muito próximo e, quando uma tarde de inverno se tornava escura e fria, a família se reunia na sala de estar, Jim puxava o banco e deixava seus dedos tocarem nas teclas frias e macias.
Ele não era um pianista fantástico; no passado, seu instrumento havia sido o trompete. Mas Jim possuía um bom par de ouvidos e dedos ágeis que conseguiam estabelecer o ritmo e a melodia de uma canção popular, martelando-os até que o topo do piano encostasse-se à moldura. (...) Mary não era musical - era uma enfermeira que olhava para o mundo com olhos sombrios, embora meigos -, mas adorava o jeito do marido com as canções. Gostava especialmente de ver Paul sentado no chão encarando o pai, com os olhos castanhos acesos e as bochechas fofinhas abertas num sorriso."

Paul e John:
"Sob vários aspectos, os dois adolescentes eram como espelhos um do outro. Quase de imediato, quando John e Paul se sentavam frente a frente, os braços de suas guitarras - um para a mão direita outro para a mão esquerda - apontavam na mesma direção, enquanto dois dedos dançavam com a palheta em total sintonia com os do parceiro. Suas personalidades também se espelhavam: o garoto mais velho impetuoso e geralmente destemperado equilibrado pelo jovem companheiro sorridente e afável. Todavia, embora ambos parecessem escolhas improváveis um para o outro, John e Paul também compreendiam que se ajudavam reciprocamente nas próprias fraquezas. John admirava a desenvoltura de Paul ao se apresentar, tanto no palco quanto fora dele, ao mesmo tempo em que Paul se encantava com a inteligência fulminante de John, e sua disposição - e não avidez - para dizer sem pudor todas as coisas cruéis em que Paul pensava secretamente, mas não conseguia expressar."

Linda:
"Tietes dentro de casa, drogas por toda parte, a névoa tóxica de tudo, o tempo todo. No entanto, nos momentos silenciosos que precediam o amanhecer, aquilo não significava nada. Nada que realmente tivesse importância, e foi ali que a mente de Paul se voltou para a loira de olhos grandes e redondos de Nova Iorque. Ela era diferente: nem elegante, nem hippie de butique; nem fria, nem escaldante. Mas havia algo nela, aquele calor indefinível, que o fazia se sentir diferente também. Mais perto do chão. À vontade e - seria possível? - seguro."

Ele é uma lenda.

Autor: CARLIN, PETER AMES
Tradutor: CURY, VANIA MARIA
Baseado vida/obra: MCCARTNEY, PAUL
Editora: NOVA FRONTEIRA
ISBN: 9788520923399
44,90