quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ler devia ser proibido

- Guiomar de Grammont

“A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.”

terça-feira, 28 de abril de 2015

Se eu ficar

Por Bruna Bonfeld

"Se eu ficar" gerou uma série de sentimentos contraditórios em mim. Tentei ler uma vez e não consegui passar das primeiras páginas. Apesar de enxergar potencial na história não me senti cativada pelo livro, exatamente como tinha acontecido com "Morte Súbita". Como sei que a gente nunca lê o mesmo livro duas vezes resolvi dar mais uma chance. 

Os fãs do livro provavelmente me chamariam de insensível, mas eu demorei bastante para me encantar com a personagem Mia. 

Mia, adolescente tinha uma vida normal. Pais, irmão, avós, tios, primos, um namorado mais velho integrante de uma banda de rock e uma melhor amiga em quem podia confiar. O que diferenciava Mia de outras adolescentes da sua idade era o fato de ser ligada a música clássica e ser violoncelista (artista que toca o instrumento violoncelo). Tudo estava indo relativamente bem, tirando alguns problemas adolescentes ocasionais, até que Mia e sua família sofrem um terrível acidente de carro, que mata seus pais e irmão mais novo e que a deixa em coma. 

A narração acontece na forma dos pensamentos da Mia enquanto estava em coma, sobre lembranças do passado e questionamentos sobre um futuro sem a sua família caso ela resolvesse ficar. A discussão central do livro é a reflexão sobre alma e corpo e até que ponto eles se separam e o quanto de poder Mia teria, enquanto alma, para permanecer viva, se essa escolha seria realmente dela. Sabe aquela polêmica sobre quando uma pessoa está em coma, sem previsão para acordar e sem alteração no seu quadro clínico e ai cogitam (médicos e família) de desligarem os aparelhos? Em nenhum momento a família de Mia pensa nessa possibilidade, mas é uma questão que poderia muito bem ser discutida a partir da leitura desse livro. 

Lendo o que eu mesma estou escrevendo me sinto completamente fascinada por essa história, porém confesso que demorei para entrar de cabeça nela, pois a autora vai liberando aos poucos as informações sobre a vida de Mia antes do acidente, o que faz com que a princípio você não sinta muita empatia por essa garota "introspectiva e solitária como seu violoncelo" (pensamento dela), pelo menos essa foi minha percepção inicial. Como gosto de emoções fortes, as vezes ficava um pouco sem paciência para essa demora em demonstrar os sentimentos da personagem.

Enfim, o fato é que aos poucos fui me envolvendo, envolvendo, envolvendo e quando vi já não conseguia mais largar esse livro. 

Na edição dessa capa ainda tem entrevista com os atores escolhidos para a adaptação do cinema, que eu ainda não vi, e um capítulo do livro "Para onde ela foi", que seria uma continuação. Não consegui ler, não quis ler, já que estava completamente embevecida pela história, por aquela história unicamente e não pude deixar de me perguntar o que eu faria no lugar de Mia. 

O que Mia fez? Ela escolheu ficar? Vocês terão que ler pra saber. 

Autor: FORMAN, GAYLE
Editora: NOVO CONCEITO

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Para ler em silêncio

“No princípio, foi a palavra falada: para cumprir sua profecia, fez-se necessário eternizá-la.”

Para ler em silêncio (Bartolomeu Campos de Queiroz)

Tomei ciência, por meio da leitura, que um dia o universo fora um caos. E veio a palavra – faça-se a luz – para o dia e a noite acontecerem. E assim foi com a terra, os mares e mais o firmamento inteiro. A palavra realizou o que anunciava e transformou a desordem em beleza e movimento. E em sete dias tudo que a nossa palavra alcança nos foi dado de presente. E ainda agora e sempre, nos será permitido reinventar novas palavras na medida em que se torna impossível exaurir a harmonia misteriosa do universo.

Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar os desertos. E mais, escrever é dividir sobressaltos, explicitar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude.

Antes de iniciar meu trabalho, eu respiro o silêncio. No silêncio, leio, em mim, mais e melhor o que ainda está por dizer. O universo é um grande livro aberto e sem texto. Mas como a penumbra, ele se mostra sem se revelar. Ele me anuncia sobre todas as coisas. Desde o antes até o depois. Fala do visível e do invisível, do doce e do amargo, da terra, água, fogo e ar. É um livro que consente tantas leituras quantos são aqueles que vivem nele e têm olhos de escutar. Cada escuta acorda uma suspeita. Mesmo assim sendo, não esgotamos os sentidos que dormem na palavra. O universo não envelhece; ele se rejuvenesce, e sempre pela palavra.

Legendar o universo, eu bem sei, é o primordial ofício humano. Não se resta calado diante de sua desmedida sedução. E sei mais: o olhar acaricia apenas a superfície das coisas. É preciso atravessar as cascas e buscar batizar o ainda intocável pelo olhar. Para tanto, há que libertar a fantasia para que ela faça seu percurso até o “dentro” e derrame a luz da palavra. Só pela fantasia é possível aproximar-se da intimidade das “coisas” e nomeá-las. Depois do olhar, só a fantasia contempla.

A literatura é feita da fantasia concretizada pela palavra. Sem se contentar com o real, a fantasia adjetiva o mundo tendo como estrela-guia a busca da beleza. A literatura confirma que “o belo é bom”. Conversamos com a beleza desprovidos da solidão. Não se está só quando o mais definitivo dos diálogos acontece: o real e o ideal conversam sucessivamente no silêncio de nós.

E o silêncio do mundo nos acorda perguntas que exigem cuidados aos respondê-las, sem ferir seus segredos, protegendo seu alumbramento. Perguntar é querer saber mais. E não se vive sem respostas. Se reinventadas, maiores riquezas se acrescentam ao mundo. Guiada pela fantasia, a literatura não nos rouba a voz, não nos deixa mudos. Liberdade, fantasia e palavra fundam a literatura.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Morte Súbita

Por Bruna Bonfeld

Posso dizer que "Morte Súbita" é um dos livros mais tristes que já li e sinceramente esse é um desfecho pelo qual eu não estava esperando. 

J.K. Rowling, autora também da saga Harry Potter (e quem me conhece sabe que é a minha preferida) e dos romances policiais "O Chamado do Cuco" e o "Bicho da seda" (também fantásticos), mostra toda a sua versatilidade ao escrever Morte Súbita. 

A história se passa no vilarejo de Pagford, uma cidadezinha dentro de Yarvil, mas não submetida a ela. Entre esses dois locais há também o bairro de Fields, no qual reside a população mais pobre e carente. Após a morte de Barry Fairbrother, membro fundamental do conselho de Pagford e grande defensor de melhorias para os moradores de Fields (local onde ele próprio nasceu), todos no vilarejo de Pagford são atingidos direta ou indiretamente. A vida dos personagens se intercruzam e as faces da hipocrisia social ficam bastante evidentes. 

Barry Fairbrother morre de aneurisma (uma veia de seu cérebro é rompida) subitamente, deixando até mesmo seus inimigos políticos desamparados. 

Vencer o início um tanto cansativo do livro, no qual você se vê enredado em questões de picuinhas sociais muito enraizadas, é essencial para descobrir um livro sensível e um enredo surpreendente.
Terminei o livro com aquela sensação de pesar e tristeza, mas também de felicidade ao me deparar com uma literatura tão envolvente.
Super indico! Nota 10! Emoticon smile

PS: Destaque para os personagens Khristal Weedon, adolescente e para seu irmão Robbie Weedon. Extremamente pobres, filhos de uma mãe viciada em heroína, Khristal para mim ganha destaque na sua luta comovente para ficar com o irmão de 3 anos Robbie, que é classificado como "criança em situação de risco" pelo Serviço Social de Pagford. Eles também são profundamente atingidos pela morte de Barry Fairbrother, por Barry ter sempre vontade de ajudar Khristal que também veio de Fields, mesmo bairro pobre que ele. Poderia escrever linhas e linhas sobre essa personagem maravilhosa, cheia de defeitos, mas honesta, batalhadora, sensível e inspiradora que é Khristal, mas como o livro tem diversos personagens com complexidades muito grandes, me resumo a essas poucas palavras e também para que quem for ler o livro consiga descobri-la aos poucos, como eu fiz.

Autor: ROWLING, J. K.
Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: Literatura Internacional - Romances