segunda-feira, 27 de abril de 2015

Para ler em silêncio

“No princípio, foi a palavra falada: para cumprir sua profecia, fez-se necessário eternizá-la.”

Para ler em silêncio (Bartolomeu Campos de Queiroz)

Tomei ciência, por meio da leitura, que um dia o universo fora um caos. E veio a palavra – faça-se a luz – para o dia e a noite acontecerem. E assim foi com a terra, os mares e mais o firmamento inteiro. A palavra realizou o que anunciava e transformou a desordem em beleza e movimento. E em sete dias tudo que a nossa palavra alcança nos foi dado de presente. E ainda agora e sempre, nos será permitido reinventar novas palavras na medida em que se torna impossível exaurir a harmonia misteriosa do universo.

Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar os desertos. E mais, escrever é dividir sobressaltos, explicitar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude.

Antes de iniciar meu trabalho, eu respiro o silêncio. No silêncio, leio, em mim, mais e melhor o que ainda está por dizer. O universo é um grande livro aberto e sem texto. Mas como a penumbra, ele se mostra sem se revelar. Ele me anuncia sobre todas as coisas. Desde o antes até o depois. Fala do visível e do invisível, do doce e do amargo, da terra, água, fogo e ar. É um livro que consente tantas leituras quantos são aqueles que vivem nele e têm olhos de escutar. Cada escuta acorda uma suspeita. Mesmo assim sendo, não esgotamos os sentidos que dormem na palavra. O universo não envelhece; ele se rejuvenesce, e sempre pela palavra.

Legendar o universo, eu bem sei, é o primordial ofício humano. Não se resta calado diante de sua desmedida sedução. E sei mais: o olhar acaricia apenas a superfície das coisas. É preciso atravessar as cascas e buscar batizar o ainda intocável pelo olhar. Para tanto, há que libertar a fantasia para que ela faça seu percurso até o “dentro” e derrame a luz da palavra. Só pela fantasia é possível aproximar-se da intimidade das “coisas” e nomeá-las. Depois do olhar, só a fantasia contempla.

A literatura é feita da fantasia concretizada pela palavra. Sem se contentar com o real, a fantasia adjetiva o mundo tendo como estrela-guia a busca da beleza. A literatura confirma que “o belo é bom”. Conversamos com a beleza desprovidos da solidão. Não se está só quando o mais definitivo dos diálogos acontece: o real e o ideal conversam sucessivamente no silêncio de nós.

E o silêncio do mundo nos acorda perguntas que exigem cuidados aos respondê-las, sem ferir seus segredos, protegendo seu alumbramento. Perguntar é querer saber mais. E não se vive sem respostas. Se reinventadas, maiores riquezas se acrescentam ao mundo. Guiada pela fantasia, a literatura não nos rouba a voz, não nos deixa mudos. Liberdade, fantasia e palavra fundam a literatura.
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