domingo, 24 de fevereiro de 2013

As intermitências da morte

Imagine se um dia a morte resolve fazer uma greve, para mostrar às pessoas sua importante circunstância de existir.

Saramago consegue, em apenas uma obra, nos levar a vários recônditos da nossa alma. Este livro conta a história de um país que parou de morrer, por determinação da própria morte. Cansada de ser odiada e temida, ela resolve mostrar às pessoas o que é vive o caos de uma sociedade sem mortes. Famílias com doentes em estágio terminal, mães com crianças acidentadas, asilos cheios de idosos que não poderiam mais ceder lugar a novos idosos. Isso faz pensar na importância do ciclo da vida, na perfeição da natureza, ao ter para cada ser humano, sua hora de chegar e partir. O livro é cômico e trágico, daqueles que nos fazem rir e chorar na distância de uma página. Genial, como Saramago é.

Trechos que separei para postar:

"... Antes de prosseguirmos convirá esclarecer que o termo nojo, posto pelo épico na boca do infeliz gigante, significava então, e só, tristeza profunda, pena, desgosto, mas, de há tempos a esta parte, o vulgar da gente considerou, e muito bem, que se estava a perder ali uma estupenda palavra para expressar sentimentos como sejam a repulsa, a repugnância, o asco, os quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." (pág. 65)

A fábula da tigela de madeira:
"... e então perguntou, Que estás a fazer. O rapaz fingiu que não tinha ouvido e continuou a escavar a madeira com a ponta da navalha, isto passou-se no tempo em que os pais eram menos assustadiços e não corriam a tirar das mãos dos filhos um instrumento de tanta utilidade para a fabricação de brinquedos. Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tornou o pai a perguntar, e o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu, Estou a fazer uma tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô. Foram palavras santas. Caíram as escamas dos olhos do pai, viu a verdade a sua luz, e no mesmo instante foi pedir perdão ao progenitor e quando chegou a hora da ceia por suas próprias mãos o ajudou a sentar-se na cadeira, por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia fazer e o seu querido pai já não."

Parte da carta da morte aos cidadãos, por intermédio da TV, em rede nacional:
"...senhor director-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal, seria vir a público reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite,..."


Autor: SARAMAGO, JOSE
Idioma: PORTUGUES
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES
43,00
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