quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Véu

E aí a gente pensa que o autor se satisfez com uma obra de impacto e suspense na medida, não é? Não. Mais uma vez Luis Eduardo Matta se supera em ritmo, suspense e rapidez de raciocínio. A história viaja do Rio de Janeiro à Arábia Saudita e fala, entre outras coisas, da polêmica vida da mulher muçulmana.

Lourenço Monte Mor cria uma obra intrigante e encantadora ao mesmo tempo, em que retrata uma mulher muçulmana nua, com apenas um transparente véu islâmico a lhe cobrir o corpo e o rosto.

O quadro é motivo de polêmica entre os religiosos mais radicais e, após sua primeira exposição, começam a ocorrer mortes e atentados. Seu criador, Lourenço, é assassinado de maneira drástica e todos acreditam que o quadro incendiara com tantos outros. A família, porém, consegue escondê-lo por bastante tempo.

Araci Quintanilha, tia de Lourenço e proprietária de uma tradicional casa de leilões resolve leiloar O Véu em um evento que atrairia a nata da sociedade carioca. A partir daí começa a reviravolta em sua vida e de sua família, bem como de pessoas ao redor do mundo, de Teerã à Europa, inclusive o assassinato de Abu al-Horiah, líder de uma organização iraniana.

A palavra texto vem do latim (textu) e significa "tecido, entrelaçamento". Foi tudo o que consegui pensar a respeito de O Véu. O autor se apropriou desse significado de texto para criar uma teia de histórias, vidas, mistério, religiosidade, mundo.

Belíssimo livro. Aos aficionados por suspense, link para livraria virtual.

Autor: MATTA, LUIS EDUARDO
Editora: PRIMAVERA EDITORIAL

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sobre meninos e lobos

História triste, pesada, real. Cheguei à metade deste livro em 2003, quando o perdi em um hotel em Brasília. Depois de anos comprei outro exemplar para terminar a história que tinha me tocado tanto.

Jimmy, Sean e Dave eram amigos de infância. A vida os separou e, anos depois, tiveram que se reencontrar e voltar ao passado, lugar onde passaram anos querendo esquecer. Nessa infância pouco longínqua, eles estavam brincando na rua quando um carro parou e dois homens levaram Dave. O Menino que Escapou dos Lobos passou quatro dias desaparecido. Quando voltou, já não era mais a mesma pessoa. Jimmy e Sean também não o foram. Os anos passaram e eles pensavam em como teria sido suas vidas se tivessem entrado naquele carro também ou tivessem impedido que o amigo entrasse.

Já adultos, os três se reencontram em torno da morte da filha mais velha de Jimmy, assassinada brutalmente. A verdade vai se descortinando em suas vidas da forma implacável que costuma fazer quando fugimos dela.

Um livro de alta voltagem. Tenso do início ao fim. 

"... Ele acordava com medo - medo de que Katie rolasse da cama à noite, ficasse numa posição ruim e morresse sufocada; medo de que a economia do país piorasse e ele ficasse sem emprego, medo de que Katie caísse do trepa-trepa na escolinha na hora do recreio; medo de que ela quisesse alguma coisa que não pudesse lhe dar; medo de que sua vida continuasse naquele carrossel de medo, de amor e de exaustão, para sempre."

"A gente sente essas coisas no fundo da alma, em nenhum outro lugar. Às vezes, a gente sente a verdade confusamente, para além de qualquer lógica, e em geral se tem razão, sobretudo quando se trata de uma verdade que não se quer admitir e que não se tem certeza de poder enfrentar. Aí a gente tenta ignorar, procura um psiquiatra ou passa longas horas nos bares, embrutecendo-se na frente da televisão - só para tentar escapar dessas verdades duras demais, feias demais, que a alma intuiu bem antes de a razão se dar conta."


Autor: LEHANE, DENNIS
Tradutor: MACHADO, LUCIANO VIEIRA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - FICÇÃO POLICIAL

terça-feira, 9 de julho de 2013

A revolução dos bichos

Por Bruna Bonfeld


Eric Arthur Blair, com o pseudônimo de George Orwell, nos conta sobre "A Revolução dos bichos", uma obra literária em forma de fábula, sobre bichos que, cansados da tirania dos humanos, que os maltratava e inferiorizava, resolvem fazer uma revolução, em busca da autonomia de todos os animais.

Essa revolução, prevista pelo sábio e respeitado porco da Granja do Solar de fato acontece e os bichos saem vencedores. Entretanto, o lema "duas pernas ruim, quatro patas boas" é substituído por "alguns animais são mais iguais que outros". 

O livro é uma crítica ferrenha ao ideal comunista. Crítica ferrenha e inteligente, para fácil compreensão de que a busca e a sede pelo poder sempre ocorrerá. 

Apesar de poder ser lido por um público leigo, o livro privilegia aqueles que têm algum conhecimento histórico sobre Revolução Russa.

Autor: ORWELL, GEORGE
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O palhaço e sua filha

Literatura turca, escrita por Halide Edip Adivar, autora feminista nascida em 1884, que passou a vida inteira em Istambul e conseguiu lutar por liberdade sem perder o respeito por sua crença.

O livro conta a história de Rabia, desde antes de seu nascimento. A mãe, religiosa fanática se apaixona pelo sobrinho e herdeiro do dono do mercado do bairro Sinekli-Bakkal. Tevfik é carismático e seu talento para o teatro pulsa dentro de si como tudo aquilo para o qual o destino chama o ser humano. O casamento deles não dura, pois a arte que mora em Tevfik o impede de mudar de essência como sonha sua maníaca esposa. Separam-se antes do nascimento de Rabia, que passa a infância em companhia da mãe e do avô, religioso ortodoxo. Seu pai torna-se exilado por ordem do paxá. Ainda criança aprende o ofício de Recitadora do Corão, prática muito incentivada pelo avô. Assim, sua vida começa a mudar, quando ela é solicitada para recitar o Corão em lugares públicos e residências, como a casa do paxá Selim, onde sua esposa se toma de amores por Rabia. Ali ela conhece um mundo absolutamente oposto ao que tinha vivido até então. Com sua aguda inteligência, percebe ao seu redor tudo o que precisa e deseja para viver de acordo com seu eu. Sua vida é marcada por essa família que, de um lado, a aterroriza com base na religião e, de outro, a torna livre e dona de seu destino.

A autora passeia por um período pré-revolução (1908) e retrata uma Istambul cheia de vida e contradições. Maravilhoso livro.

"... Osman ia adorar tudo aquilo. Mas ela estava se sentindo um pouco sozinha. Rabia sentia falta da pequena rua; ela estava acostumada a fronteiras palpáveis de definidas; esse horizonte nebuloso e elusivo a assustava. Não havia nenhum movimento nele. Nessa hora, as pessoas em sua rua estariam indo para a mesquita ou visitando um ao outro. Essa mudança de ares lhe deu a sensação de ter dobrado uma esquina em sua vida. Não gostava de esquinas. No instante em que se vira uma esquina, torna-se outra pessoa. Nunca se pode livrar-se de seu eu anterior, então se fica acumulando um eu sobre o outro, de modo que o mais recente fica em cima."

Autor: ADIVAR, HALIDE EDIP
Editora: PLANETA DO BRASIL
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A outra face do desejo

E cada vez me convenço mais que a literatura brasileira está modificando uma peculiaridade sua, de produzir obras minuciosamente descritivas, para abrir um leque de oportunidades de estilo para os leitores. Acredito que isso já aconteça há mais tempo do que o leitor brasileiro percebe, quando surgem autores como Clarice Lispector e Rubem Braga, por exemplo.

O discurso de alguns leitores que tendem à literatura estrangeira com o argumento do ritmo e fatores-surpresa pode ir por água abaixo, respeitosamente. Sou fã da literatura mundial, sei que cada nação possui sua forma de lidar com a junção palavra-criação, porém isso não é e nem deve ser rotulado em cada bandeira nacional. Aqui no blog marco, além de outras, seções de identificação nacional do livro. Para todos os gostos. 

E aí recebo este belíssimo presente. A outra face do desejo, de Luis Eduardo Matta é um thriller de tirar o fôlego, do início ao fim. Como todo leitor de suspense, tentamos o tempo inteiro deduzir conclusões de acordo com cada situação. Hum... proponho um desafio aos meus leitores: procurar deduzir o que quer que seja neste livro. Quem acertar qualquer coisa, por favor, passe por aqui para contar. Além do fator-surpresa ser gritante aos nossos sentidos, ainda há um ritmo alucinante nas páginas. Literatura contemporânea na veia.

A história se passa aqui no Rio de Janeiro e começa com a morte de um advogado bem-sucedido, Guilherme, casado com a adorável Fernanda, mulher do interior do estado que ganha notoriedade por sua competência profissional, na publicidade. Quando a tragédia acontece, o casamento está em estágio 'morno', Guilherme e Fernanda vivendo para suas carreiras e esfriando o lar, como se diz.

Ela, alguns anos mais jovem do que ele, se vê viúva aos 36 anos. A vida de Fernanda sofre uma transformação absoluta, e ela passa a ter que se defender de intrigas e acusações. Paralelamente descobre-se assediada sexualmente por um charmoso colega de trabalho, Breno, que se tornará aliado em sua busca por justiça. Como se não bastasse, ainda encontra Ricardo, uma antiga paixão de colégio, que ela jamais esqueceu e sempre nutriu um amor platônico. E para fechar o ciclo de problemas-intrigas-desejo, sua sogra, a qual Fernanda nutria carinho sincero, se volta contra ela, julgando a nora por desmazelo no casamento. Dona Adelina acredita que isso causou todos os problemas de coração de seu único filho.

Um livro com alta voltagem, para quem gosta de suspense, romance e muita surpresa.

Para quem não resiste a um suspense de primeira, A outra face do desejo é O livro. Link para compra virtual.

Autor: MATTA, LUIS EDUARDO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - ROMANCES

domingo, 19 de maio de 2013

Sobre a beleza

Howard Belsey e Monty Kipps são professores de uma universidade de Wellington, pequena (e universitária) cidade e, por causa de ideologias contrárias - Howard, um liberal confesso se digladia em debates intelectuais com o conservador Monty - transformam suas famílias em rivais, até que a vida e seus estranhos caminhos os separem (ou não).

Howard é casado com Kiki, enfermeira afro-americana, e tem três filhos (Jerome, Zora e Levi) com ela. Cada um absorve da maneira que pode os conflitos que atravessam suas vidas. Jerome, o primogênito, se muda temporariamente para a Inglaterra após um furacão aparecer de surpresa em sua casa: o romance de seu pai com outra professora, também casada. Howard e Kiki tentam superar a crise que se instalou e seguir em frente.

Mas a vida tem dessas coisas... Jerome se apaixona pela filha de Monty, Kiki se envolve em uma amizade controversa com a conservadora sra. Kipps e Zora se vê em um conflito interno ao se perceber admiradora intelectual da ex-amante do pai, sua professora de literatura.

Um romance cheio de meandros e conflitos íntimos. A autora inglesa Zadie Smith reúne parte das mazelas e grandezas humanas em um canto do nosso mundo. Ela solidifica a realidade humana e, especialmente, familiar, de maneira crua e sem desvios.

"Howard supunha que sua presença era constrangedora para o filho. A vergonha parecia ser a herança masculina na linhagem dos Belsey. Como Howard achava a presença de seu pai excruciante quando tinha a mesma idade! Desejava alguém que não fosse um açougueiro, alguém que usasse o cérebro no trabalho em vez de facas e balanças - alguém mais parecido com o homem que Howard era hoje. Mas você muda e os filhos também mudam. Será que Levi preferiria um açougueiro?"


Autor: SMITH, ZADIE
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

terça-feira, 7 de maio de 2013

Palavras

E quando tudo fica muito confuso, lá vem ele e nos permite essas tais Outras Palavras...



Outras Palavras (Caetano Veloso)

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras

Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cultura na Península Ibérica Medieval e Moderna (sécs. XIII-XVII)

Cultura en la Peninsula Ibérica Medieval y Moderna (siglos XIII-XVII)
Coordenação: 


MEMORIAM CULTURAL e ISIC-IVITRA (Universitat d’Alacant) têm o prazer de convidar os interessados na história cultural da Península Ibérica a participar deste curso de extensão online. Nossa proposta é oferecer um panorama introdutório do desabrochar ibérico para o cenário global a partir dos séculos centrais da Idade Média até a Modernidade. A ênfase será dada à cultura, tanto em suas manifestações literárias quanto artísticas e filosóficas. Integram o corpo docente grandes especialistas do Brasil, Espanha, Portugal e da Argentina que apresentarão temas de suas respectivas investigações acadêmicas.

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Medieval and Early Modern Iberian Peninsula Cultural History (13th-17th c.)
Coordination:


MEMORIAM CULTURAL and ISIC-IVITRA (Universitat d’Alacant) are pleased to invite those interested in the cultural history of the Iberian Peninsula to participate in this online course. Our goal is to provide a comprehensive overview of the cultural history of the Iberian Peninsula from the Middle Ages through the Early Modern period from an artistic, literary, and philosophical standpoint. Renown scholars from Brazil, Spain, Portugal, and Argentina will provide online lectures on several topics of their specialty. 


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Cultura en la Peninsula Ibérica Medieval y Moderna (siglos XIII-XVII)

Coordinación: 
Prof. Dr. Ricardo da Costa (UFES, Brasil)
Prof. Dr. Vicent Martines (UA, España)


MEMORIAM CULTURAL y ISIC-IVITRA (Universitat d’Alacant) se complacen en invitar a todos los interesados en la Historia Cultural de la Península Ibérica a participar de este curso online. Nuestra propuesta es ofrecer un panorama introductorio de los siglos centrales de la Edad Media hacia la Modernidad. Se hará hincapié en la cultura, tanto en sus manifestaciones artísticas como literarias y filosóficas. Invitamos investigadores de Brasil, España, Portugal y Argentina, que presentarán sus respectivos trabajos académicos. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dez mulheres

A sensibilidade deste livro chileno me deixou sem fala. Mais um presente maravilhoso, de uma amiga igualmente sensível e especial. Dez mulheres é um romance com dez capítulos, em que cada um ganha um narrador e protagonista da própria vida.

Natasha é terapeuta e decide reunir suas pacientes em uma casa onde cada uma relatará suas questões às outras, numa espécie de terapia em grupo, porém individual. O exercício ali é saber ouvir e ser ouvida. É se expor a pessoas estranhas, diferentes, sem nenhum traço em comum. É conhecer uma realidade que nos caminhos da vida provavelmente nenhuma delas teria oportunidade. E que histórias, que realidades, que vidas! O livro é construído, produzido, diagramado para ser devorado em pouco tempo. As emoções afloram em nós e vêm em todos os formatos, sensações, sentimentos.

Nove pacientes em nove capítulos. O último capítulo é a vida de Natasha, contada por sua assistente mais antiga e fiel.

Marcela Serrano é, para mim, uma descoberta incrível e certamente irei à procura de todas as suas obras. O conhecimento profundo da alma feminina exposto em Dez mulheres é absurdo. As entrelinhas do feminino, sua capacidade de profundamente tragar todos os sentidos é desvairado e intenso. Marcela nos convoca a perceber todas as mulheres que nos habitam. 

Algumas de nós:

"No posto de saúde me falaram de um derrame. O médico falou em apoplexia. Infarto cerebral. Dá no mesmo. O importante é a consequência: ela ficou semi-inválida; o lado esquerdo, quase paralisado; o braço e a perna, inúteis; e a boca, torta para sempre. Essa é minha velha hoje. Quase não tem mais palavras, talvez já tenha dito todas e se esvaziou, como um bule quando a água já está fria e não serve mais. Ela, a pessoa mais ativa e trabalhadora, a pessoa que me ensinou a ser incansável, passa o dia todo sentada no sofá esperando que aconteça alguma coisa, que alguém chegue, que a vida lhe conte alguma coisa diferente do que dizem as vozes da televisão que eu deixo ligada quando saio de manhã para que ela se sinta acompanhada. Como eu gostaria de ficar ao seu lado, arrumá-la sem ter pressa, dar-lhe um banho todo dia, lavar seu cabelo e fazer cachinhos, conversar com ela, cozinhar, alegrá-la. Mas não posso parar de trabalhar."

"Lá comecei a conviver com a dor. E a me perguntar, ao contrário do que se podia esperar, pelo valor do esquecimento. É que, vivendo no meio dessa família e desse povo, comecei a entender a memória como uma doença. Meu povo está doente dela. A Palestina. Terra prometida. Terra túmulo. A boa memória pode se tornar abusiva. Lembrar-se de tudo equivale a pegar uma faca toda manhã e cortar diferentes partes do corpo. Temos que organizar o esquecimento. Se as dores pessoais têm seus próprios direitos e suas próprias exigências, por que não as dores históricas? [...] Os corpos absorvem a história. Afinal, o seu corpo é a sua história porque tudo está contido nele. Só quero dizer que, se viver num território ocupado é humilhante e dramático e injusto, a vida na Cisjordânia chega a parecer o céu frente ao que é a vida em Gaza."

"Minha história é muito batida. Menina-grã-fina-rebelde-abandona-sua-classe-social-para-fazer-revolução. Sou um caso típico! E aqui estou, quarenta anos depois, vendo como vivi de molde em molde, só trocando o conteúdo."

"Nasci no dia em que os Beatles fizeram sua última apresentação no terraço de um edifício em Londres, no dia 30 de janeiro de 1969. Meu nome é Layla. Sou jornalista. [...] Sou alcoólatra. E, como esta reunião não é de Alcoólatras Anônimos, me sindo eximida da tarefa de apoiar. É um alívio poder me largar contra vocês. Natasha não vai me reprimir. Mas questiono o fato de me apresentar aqui com esta caracterização, reduzindo de imediato tudo o que eu sou ao meu alcoolismo."

"Afinal, pensa, saindo da janela, afinal todas nós, de um modo ou de outro, temos a mesma história para contar."

Autor: SERRANO, MARCELA
Tradutor: ROITMAN, ARI
Tradutor: WACHT, PAULINA
Idioma: PORTUGUES
Editora: ALFAGUARA BRASIL
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - LATINO-AMERICANA

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Palavra da Martha


"Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber viver sem manual de instruções." (Martha Medeiros)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Meia, meia ou meia?

Adorei isso! Compartilhando. :)

Excelente texto de Jansen Viana (site Recanto das Letras)

 Na recepção dum salão de convenções, em Fortaleza:   - Por favor, gostaria de fazer minha inscrição para o Congresso.
Pelo seu sotaque vejo que o senhor não é brasileiro. O senhor é de onde?
- Sou de Maputo, Moçambique.

- Da África, né?

- Sim, sim, da África.

- Aqui está cheio de africanos, vindo de toda parte do mundo. O mundo está cheio de   africanos.

- É verdade. Mas se pensar bem, veremos que todos somos africanos, pois a África é o   berço antropológico da humanidade...

- Pronto, tem uma palestra agora na sala meia oito.

- Desculpe, qual sala?

- Meia oito.

- Podes escrever?

- Não sabe o que é meia oito? Sessenta e oito, assim, veja: 68.

- Ah, entendi, meia é seis.

- Isso mesmo, meia é seis. Mas não vá embora, só mais uma informação: A organização
   do Congresso está cobrando uma pequena taxa para quem quiser ficar com o material:   DVD, apostilas, etc., gostaria de encomendar?
- Quanto tenho que pagar?

- Dez reais. Mas estrangeiros e estudantes pagam meia.

- Hmmm! que bom. Ai está: seis reais.

- Não, o senhor paga meia. Só cinco, entende?

- Pago meia? Só cinco? Meia é cinco?

- Isso, meia é cinco.

- Tá bom, meia é cinco.

- Cuidado para não se atrasar, a palestra começa às nove e meia.

- Então já começou há quinze minutos, são nove e vinte.

- Não, ainda faltam dez minutos. Como falei, só começa às nove e meia.

- Pensei que fosse as 9:05, pois meia não é cinco? Você pode escrever aqui a hora que
   começa?
- Nove e meia, assim, veja: 9:30

- Ah, entendi, meia é trinta.

- Isso, mesmo, nove e trinta. Mais uma coisa senhor, tenho aqui um folder de um hotel   que está fazendo um preço especial para os congressistas, o senhor já está   hospedado?

- Sim, já estou na casa de um amigo
.
- Em que bairro?

- No Trinta Bocas.

- Trinta bocas? Não existe esse bairro em Fortaleza, não seria no Seis Bocas?

- Isso mesmo, no bairro Meia Boca.

- Não é meia boca, é um bairro nobre.

- Então deve ser cinco bocas.

- Não, Seis Bocas, entende, Seis Bocas. Chamam assim porque há um encontro de seis   ruas, por isso seis bocas. Entendeu?

- E há quem possa entender?

domingo, 24 de fevereiro de 2013

As intermitências da morte

Imagine se um dia a morte resolve fazer uma greve, para mostrar às pessoas sua importante circunstância de existir.

Saramago consegue, em apenas uma obra, nos levar a vários recônditos da nossa alma. Este livro conta a história de um país que parou de morrer, por determinação da própria morte. Cansada de ser odiada e temida, ela resolve mostrar às pessoas o que é vive o caos de uma sociedade sem mortes. Famílias com doentes em estágio terminal, mães com crianças acidentadas, asilos cheios de idosos que não poderiam mais ceder lugar a novos idosos. Isso faz pensar na importância do ciclo da vida, na perfeição da natureza, ao ter para cada ser humano, sua hora de chegar e partir. O livro é cômico e trágico, daqueles que nos fazem rir e chorar na distância de uma página. Genial, como Saramago é.

Trechos que separei para postar:

"... Antes de prosseguirmos convirá esclarecer que o termo nojo, posto pelo épico na boca do infeliz gigante, significava então, e só, tristeza profunda, pena, desgosto, mas, de há tempos a esta parte, o vulgar da gente considerou, e muito bem, que se estava a perder ali uma estupenda palavra para expressar sentimentos como sejam a repulsa, a repugnância, o asco, os quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." (pág. 65)

A fábula da tigela de madeira:
"... e então perguntou, Que estás a fazer. O rapaz fingiu que não tinha ouvido e continuou a escavar a madeira com a ponta da navalha, isto passou-se no tempo em que os pais eram menos assustadiços e não corriam a tirar das mãos dos filhos um instrumento de tanta utilidade para a fabricação de brinquedos. Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tornou o pai a perguntar, e o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu, Estou a fazer uma tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô. Foram palavras santas. Caíram as escamas dos olhos do pai, viu a verdade a sua luz, e no mesmo instante foi pedir perdão ao progenitor e quando chegou a hora da ceia por suas próprias mãos o ajudou a sentar-se na cadeira, por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia fazer e o seu querido pai já não."

Parte da carta da morte aos cidadãos, por intermédio da TV, em rede nacional:
"...senhor director-geral da televisão nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal, seria vir a público reconhecer o equívoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite,..."


Autor: SARAMAGO, JOSE
Idioma: PORTUGUES
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES
43,00