sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O anjo pornográfico

A vida de Nelson Rodrigues. A cada biografia que leio escrita por Ruy Castro me convenço mais de que ele é um dos melhores biógrafos do país. Este é o tipo de livro que você não consegue parar. Claro que seu personagem principal é digno de uma história eletrizante, mas a forma como o autor conta essa história é o ponto-chave.

Conhecemos por este livro o Nelson-homem, com uma vida marcada por tantas tragédias quanto não seria possível alguém sobreviver. Seus pais produziram catorze filhos geniais, uns mais outros menos, uns mais artísticos, outros mais empreendedores, como é o caso de Mario Filho, o idealizador do que hoje é a paixão nacional: o futebol. Aliás, a vida dos irmãos Mario Filho e Roberto Rodrigues produziriam um livro à parte.

Ruy Castro trouxe à tona uma vida espetacular, de um homem singular, talvez dos mais singulares filhos deste nosso país. É ler e conferir, depois me contem.

Algumas pérolas do mestre da escrita:

"Nelson, passional como uma viúva italiana, achava aquilo um empobrecimento da notícia e passou a considerar os 'copy-desks' os 'idiotas da objetividade'. 'Se o copy-desk já existisse naquele tempo', dizia, 'os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco.'"

Sobre A vida como ela é:
"- Seu Nelson, não deixo minha noiva ler sua seção!
Nelson caiu das nuvens:
- Mas por que, que piada é essa?
- Porque suas heroínas dão mau exemplo.
Nelson respondeu por escrito, na mesma época, em outra parte do jornal:
- Discordo desse ideal de noiva cega, surda e muda diante da vida. Acho que uma moça só deve ser esposa quando está em condições de resistir aos maus exemplos. Considero monstruosa, ou inexistente, a virtude que se baseia pura e simplesmente na ignorância do mal. Cada mulher devia ter um minucioso conhecimento teórico do bem e do mal. Afinal de contas, a virtude é, acima de tudo, opção."

"'Me interessa a pessoa em particular', sempre disse Nelson, 'A História que vá para o diabo que a carregue, e Marx, que vá tomar banho.'"

Sobre a amizade de Nelson e Hélio Pellegrino:

"Os dois sempre tiveram divergências políticas e, na maior parte daqueles anos, isso nunca lhes toldou a amizade. Hélio era um frenético socialista católico, o que Nelson considerava um dilema porque, na sua visão, era impossível ser socialista e católico. E Hélio entendia que o reacionarismo de Nelson era apenas a unção do indivíduo sobre a coletividade. Hélio podia não concordar, mas achava graça na frase de Nelson: 'A massa só serve para parir os gênios. Depois que os pariu, volta a babar na gravata.'"

"E então, senti que a multidão não só é desumana, como desumaniza."

Obrigada, Ruy Castro, por existir.

Autor: CASTRO, RUY
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: Biografias - Teatro

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O paraíso são os outros

Uma menina extremamente inteligente e sensível extrai das suas leituras e observações questionamentos sobre relações, amor, solidão. Por que bichos e humanos precisam viver em casal? Por que existe todo tipo de casal? A menina brinca com sua imaginação a partir dos ensinamentos de sua mãe.
Valter Hugo Mãe se lança no universo infantil de uma garotinha, deixando seus pensamentos fluírem para dentro de nós, leitores. É um arrebatamento de sentidos, sentimentos e emoções, porém com questões e dúvidas de alguém que procura entender o que não se entende. Isso é processo de amadurecimento. Procurar saber os comos, os porquês, os quais é crescer maravilhosamente por dentro.

O livro ainda vem com a contribuição visual de Nuno Cais, artista plástico brasileiro que brinca com esse paraíso que é o outro, manipulando imagens para compor o texto do autor.

Gosto muito de encontrar trechos que me capturam nos livros que leio. Foi difícil esta tarefa em O paraíso são os outros; é tanta poesia e sensibilidade do início ao fim que o livro inteiro captura, mas vou tentar pegar os mais significativos.

"Os bichos só são feios se não entendermos seus padrões de beleza. Um pouco como as pessoas. Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa."

"Leio livros para aprender. Estou sempre apressada. Sou muito mexida. Um dia quero uma coisa, no outro quero tudo. Sofro de um problema de sossego. Não sei o que é estar sossegada. Mais tarde corrijo."

"As pessoas são tão diferentes. Aprecio muito que o sejam. Fico a pensar se me acharão diferente também. Adoraria que achassem. Ser tudo é igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture."

"A tristeza a gente respeita e, na primeira oportunidade deita fora. É como algo descartável. Precisamos usar mas não é bom ficar guardada."

Autor: MAE, VALTER HUGO
Ilustrador: CAIS, NINO
Editora: COSAC NAIFY

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bisa Bia, Bisa Bel

Em meus estudos teóricos de literatura, encontrei um texto de Aristóteles que fala da diferença entre história e poesia (literatura), em que a primeira narra fatos ocorridos e a segunda aqueles que poderiam ocorrer, que podem vir a ser, e por conclusão dele, de natureza mais importante:

"Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser histórias, se fossem em verso o que eram em prosa), - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que de nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu." (Poét., IX, 50)

Esse vir a ser é marcadamente de fundamental importância e a literatura é o meio que proporciona isso. Ler abre mentes, desenvolve inteligências, proporciona sensibilidades e cria empatia.

Bem, mas por que eu estou aqui falando sobre Aristóteles e seu vir a ser? Porque ao reler Bisa Bia, Bisa Bel, percebi que foi minha primeira prova concreta desse pensamento aristotélico e, para além disso, revivi o impacto que causou Bisa Bia em mim, que a tornou inesquecível no meu coração infantil.

Bel é uma criança cheia de vida e, um dia, encontrou no meio das coisas de sua mãe uma foto de sua bisavó Beatriz, quando ainda criança. Ela se encanta com aquela menina que é sua bisavó e estabelece com ela, em seu interior, uma linda relação. Ana Maria Machado tem todo o merecimento por tantos prêmios com esse livro. Ela mistura passado, presente, futuro, valores do feminino daquela década de 1980, ditadura, perdas e ganhos, questionamentos de uma menina que pensa nos 'fatos ocorridos' e no que pode 'vir a ser'. 

Alguns trechos:

"...É que Bisa Bia mora comigo, mas não é do meu lado de fora. Bisa Bia mora muito comigo mesmo. Ela mora dentro de mim."

"Mas eu lembrei da história do gigante porque a gente podia contar a história de Bisa Bia assim: dentro do quarto de minha mãe tinha um armário, dentro do armário tinha uma gaveta, dentro da gaveta tinha uma caixa, dentro da caixa tinha um envelope, dentro do envelope tinha um monte de retratos, dentro de um retrato tinha Bisa Bia."

"E então eu soube, eu descobri. Assim, de repente. Descobri que nada é de repente. Dessa vez, a pesquisa do colégio não é só em livros nem fora de mim. É também na minha vida mesmo, dentro de mim. Nos meus segredos, nos meus mistérios, nas minhas encruzilhadas escondidas."

Bisa Bia, Bisa Bel é um livro que a gente vive, não apenas lê. 

Autor: MACHADO, ANA MARIA
Ilustrador: NEWLANDS, MARIANA
Editora: SALAMANDRA

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Contos de São João Marcos

Certamente, a melhor parte de se trabalhar com o livro é o momento de servi-lo.

O Instituto Cidade Viva realizou um trabalho de revitalização das ruínas da extinta cidade São João Marcos e trouxe um pouco da história do lugar com a construção do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Uma das belas ideias foi abrir um concurso de contos literários que tivesse menção ao lugar, fosse apenas citando, fosse em forma de recordações da cidade ou mesmo do Parque.

Tive a grata honra de ser convidada a fazer parte do juri que selecionaria os dez primeiros colocados nesse concurso; foi um dia de intensa leitura, avaliação e classificação. Todos os autores foram extremamente cuidadosos com o lugar e sua história, independente do tema escolhido.

O lançamento aconteceu em outubro e, infelizmente, não pude estar presente. Agora recebo o exemplar com seus dez contos e tenho o prazer de compartilhar com vocês esse apanhado de pequenas histórias em torno de um lugar mágico e místico. Ainda apareço por lá para te conhecer, São João Marcos.

Um pouco dos vencedores, no site Olho Vivo: http://www.olhovivoca.com.br/livros/2880/confira-os-vencedores-do-concurso-cultural-contos-de-sao-joao-marcos/

Mais um pouco do Parque: http://www.saojoaomarcos.com.br/parque.asp




terça-feira, 7 de outubro de 2014

De repente, uma batida na porta

Um livro de contos que você não está acostumado a ver por aí. O autor, Etgar Keret, vai do fantástico ao cotidiano, passando pelo esdrúxulo e surreal numa velocidade que é difícil de acompanhar, literariamente.

O que me chamou atenção neste livro foi, quando vi a capa, tinha uma frase do autor Salman Rushdie, de quem sou fã: "Um escritor brilhante, totalmente diferente de qualquer outro. A voz da nova geração." Minha curiosidade foi maior do que meu interesse menor por um livro de contos, de histórias soltas e descontextualizadas umas das outras. Não que não goste de bons contos, apenas prefiro as histórias mais longas, que me permitem viajar com elas.

Os contos são curtos, porém intensos e profundos, cada um com uma forma diferente de mostrar a essência do autor, mas que está ali, o tempo inteiro, exposta e bem definida. O primeiro trecho escolhi por ser uma espécie de apresentação:

"De todos os meus livros de contos, De repente, uma batida na porta é o mais próximo de meu coração. Porque é o primeiro, e, por enquanto, o único livro que escrevi como um pai. A paternidade é provavelmente a mais incrível e complexa experiência que já tive. Ela preenche cada manhã com medo e esperança, e acrescenta dúzias de pequenas mas comoventes vitórias e derrotas no campo de batalha da sua vida. Mais ainda, o papel de pai, se você respeitá-lo de fato, o força a olhar como se pela primeira vez para si mesmo e suas ações, de um ponto de vista novo, espantado e ligeiramente mais estreito, e a explicar a você e a seu filho este mundo confuso e o porquê de você fazer todas as coisas esquisitas que você faz nele. A maioria dos contos neste livro não está diretamente ligada à paternidade, mas foram todos escritos pelo pai de uma criança curiosa e amada, e por detrás deles está a tentativa de explicar ao meu filho, não menos que a mim mesmo, por que é difícil ser uma pessoa, e por que, diabos, ainda assim o esforço vale a pena."

"..., a vida me parece uma armadilha. Algo em que você entra sem suspeitar, e ela se fecha sobre você. E quando você está dentro, dentro da vida, quero dizer, então não há para onde fugir..."

"Meus olhos começam a se fechar agora. Não só naquele universo, na cama, na floresta, também em outros universos sobre os quais não quero pensar agora. É bom para mim saber que há outro lugar; no coração da floresta, em que adormeço agora feliz."

Autor: KERET, ETGAR
Editora: ROCCO
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - CONTOS E CRÔNICAS

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Três novelas femininas

Um livro com três histórias contadas a partir da perspectiva de três mulheres absolutamente diferentes, mas com a essência de sua época se manifestando de forma bem marcada.

Medo, Carta de uma desconhecida e 24 horas na vida de uma mulher são contos marcados de dor, angústias, fortaleza feminina e aquela sensibilidade maravilhosa das mulheres.

No primeiro conto, a personagem-narradora é uma mulher casada e rica que, se envolvendo em uma relação fora de seu casamento vive as angústias que a faz entrar em colapso, por medo de perder a vida tranquila que levava em seu tranquilo casamento.

O segundo, um lindo conto em forma de carta, escrito por uma mulher à beira da morte para o grande amor da sua vida. À medida que a história vai se descortinando para seu destinatário, mais surpresas vão aparecendo. Um belíssimo suspense.

E por último, 24 horas na vida de uma mulher, uma senhora já no final da vida elege um amigo para confessar todas as suas agruras, retirando assim um peso enorme de sua existência.

Maravilhoso livro. Após cada conto, Alberto Dines, jornalista e biógrafo de Zweig, nos brinda com comentários em textos adicionais,

Trecho da orelha, um resumo da vida do autor:

"Stefan Zweig (1881-1942), nasceu em uma rica família judia, viveu a efervescência cultural de Viena no começo do século XX. Amigo de grandes intelectuais e artistas, desde a Primeira Guerra Mundial tornou-se pacifista. Com a ascensão do nazismo, distanciou-se de seu país natal cada vez mais. Após o início da Segunda Guerra Mundial, refugiou-se no Brasil, mais especificamente em Petrópolis (RJ), onde suicidou-se com a mulher em 1942.

Autor: ZWEIG, STEFAN
Tradutor: LISBOA, ADRIANA
Tradutor: ABI-SAMARA, RAQUEL
Editora: ZAHAR
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - CONTOS E CRÔNICAS

domingo, 14 de setembro de 2014

A verdade sobre o caso Harry Quebert

Um dos romances policiais mais sensacionais que já li. É tensão e mistério da primeira à última página. Daqueles livros que você não faz ideia de como acabará e por isso não consegue parar de ler. Marcus Goldman, o melhor protagonista do mundo.

Depois de estourar com seu livro de estreia, Marcus vira uma celebridade do dia para a noite. Começa a ser pressionado pela editora a escrever o segundo, mas vê sua inspiração ir ralo abaixo. Como costuma dizer, adquiriu a doença dos escritores, a Síndrome da Página em Branco. Então, depois de um período de agonia, resolve procurar seu professor de literatura e mentor, Harry Quebert, sem imaginar que sua vida ia sofrer uma segunda reviravolta ao voltar à cidadezinha onde mora o professor.

A partir daí, Marcus se vê envolvido em uma trama absurda, com Harry sendo acusado de assassinato. O corpo de uma menina de 15 anos, desaparecida em 1975 foi encontrado em seu quintal. Marcus se vê na obrigação de procurar a verdade e defender seu melhor amigo.

Todos os personagens são marcantes e cheios de impacto. Estava saindo do metrô lendo o livro, subindo as escadas lendo o livro (!!), quando ouvi uma voz: "Esse livro é sensacional, eu também andava pelas ruas lendo". Achando que era alguém conhecido, olhei para o lado e vi uma estranha, que não resistiu em comentar. Achei um barato e mais uma prova do quanto o livro é bom.

Um pequeno trecho, uma das pílulas de ensinamento do mestre ao aluno, sobre a arte de escrever um bom romance:

"Um bom livro, Marcus, não se mede somente pelas últimas palavras, e sim pelo efeito coletivo de todas as palavras que a precederam. Cerca de meio segundo após terminar o seu livro e ler a última palavra, o leitor deve se sentir invadido por uma sensação avassaladora. Por um instante fugaz, ele não deve pensar senão em tudo que acabou de ler, admirar a capa e sorrir, com uma ponta de tristeza pela saudade que sentirá de todos os personagens. Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter terminado."

Autor: DICKER, JOEL
Editora: INTRINSECA

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eugênia e os robôs

Livro sensível sobre Eugênia, uma menina de 11 anos que, apesar de sua aguda inteligência para as artes exatas, possui uma dificuldade enorme para entender o comportamento humano, suas contradições, altos e baixos.

Trecho da orelha: "Para ela os humanos são incompreensíveis: choram quando estão felizes; dizem 'tudo bem' quanto estão tristes."

Essas singularidades da natureza humana deixam Eugênia muito confusa e, por causa disso, não consegue se relacionar com ninguém, nem com os pais, nem com os amigos da escola, professores etc. Assim, a menina resolve usar sua inteligência apurada para construir seus próprios amigos robôs, achando que enfim teria companhia em sua infinita solidão. Essa decisão fará com que ela consiga repensar os valores humanos, talvez até perceber a riqueza do singular.

Um gostinho:
"O problema é que todos os diálogos eram mais ou menos assim quando alguém puxava assunto:
- Oi, Eugênia, tudo bom?
- Não.
E era a mais absoluta verdade. Como poderia estar TUDO bom? Todas as coisas do mundo estavam funcionando perfeitamente? Nada mais ou menos? Nada nem um pouquinho ruim? A pergunta era fácil, a resposta certa devia ser não, certo?
Errado.

Autor: TOKITAKA, JANAINA
Ilustrador: TOKITAKA, JANAINA
Editora: ROCCO
Assunto: INFANTO-JUVENIS

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A confissão da leoa

"Preciso tanto de dormir! Não é descanso que procuro. Quero, sim, ausentar-me de mim. Dormir para não existir."

"De repente, rugidos, gritos e lamentos dissolveram-se no vazio, o mundo afundado aos despedaços: nada mais restava dentro dele. Para tanto esquecer é preciso não ter nunca vivido."

"Muitas vezes ele me dissera: só os humanos sabem do silêncio. Para os demais bichos, o mundo nunca está calado e até o crescer das ervas e o desabrochar das pétalas fazem um enorme barulho."

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr." (Provérbio africano)

"Para mim, Adjiru Kapitamoro (avô) tinha o viver da árvore: sendo chão, já era pertença do céu."

"Andei por abrigos extensos. Mas não encontrei sombra senão na palavra."

"Sábio é o pirilampo que usa o escuro para se acender." (Provérbio de Kulumani)

Bem, começar este post dizendo que Mia Couto é poesia em prosa da mais alta categoria é dizer mais do mesmo? Mas é exatamente o que ele é. Prosa poética personificada em Mia.

Para começar, a história tem dois narradores, um homem e uma mulher, em primeiríssima pessoa cada um e com trajetórias distintas porém entrelaçadas.

Há uma aldeia em Moçambique que está perdendo pessoas por causa de ataques de leões. O político local contrata um experiente caçador para resolver o problema, porém ele se vê envolvido em uma trama maior do que seu trabalho, trama que compreende questões externas, da aldeia e seus místicos moradores, e internas, que carrega dentro de si, em seu âmago.

O caçador, Arcanjo Baleiro é um dos narradores e Mariamar, moradora da aldeia, a outra. Alternando a visão de cada um em capítulos, vamos nos embalando nesta linda e triste história, com uma Moçambique se descortinando à nossa frente, com suas crenças, mística, problemas de ordem política, de gênero e religião. E, premiando tudo isso, a poesia do autor.

Autor: MIA COUTO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A garota que você deixou para trás

Quando minha filha me trouxe este livro e disse: "Mãe, lê que você vai adorar", absorvi a máxima "não julgar o livro pela capa", que no caso não era capa, mas sim o título, e peguei para ler. Não, não é a história de uma adolescente (garota) que foi abandonada pelo namorado em pleno baile (que você deixou para trás) que, traumatizada, resolve contar sua história de dor e solidão. Nada disso.

São duas histórias em uma. E com um intervalo temporal de quase um século. A autora, Jojo Moyes, escreveu um bonito romance que gira em torno de um quadro pintado por Édouard Lefèvre, artista francês, para sua bela mulher Sophie, pouco antes de estourar a 1ª Guerra mundial. Quando é convocado a servir, o quadro é a melhor das lembranças de Sophie, que sofre, junto com sua família, a invasão alemã em sua pacata cidade.

Mulher de fibra e coragem, Sophie nem imagina que sua história passará por tantas reviravoltas.

Século seguinte, a viúva Liv Halston vê sua vida absolutamente transformada, revirada e arrasada por causa desse mesmo quadro. A partir daí, as vidas de Sophie e de Liv estarão entrelaçadas de maneira irreversível.

Amor, guerra, muito sofrimento, esperança, dores absurdas, solidariedade, sentido de família, entendimento do outro. Tudo isso em um romance. Adorei, minha filha, obrigada!

Autor: MOYES, JOJO
Editora: INTRINSECA

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Só por hoje

Como sobreviver ao 'só por hoje'? A eterna luta contra uma doença incurável começa por aí. Como absolutamente todas as coisas na vida, só sabe e entende quem vivencia.

O livro conta a história de Tony, ex-editor de renome, que vê sua vida se desmantelar por causa da cocaína. Amores, amigos de infância, carreira bem-sucedida.

15 anos 'limpo' e Tony se vê envolvido com uma garota de programa viciadíssima e, por acreditar ter reencontrado o amor, procura seguir um dos passos do Narcóticos Anônimos e resolve estender a mão num lance perigoso, que pode o fazer ser arrastado de volta às drogas.

Romance de ritmo envolvente, cadenciado na medida. Julio Ludemir explora o universo das drogas e seu entorno, mostra o funcionamento, para o bem e para o mal, das salas do NA, clínicas de recuperação, sexo.

Com o texto narrado em primeira pessoa, seguimos esse caminho com Tony, sentindo suas angústias, desejos e frustrações, medos e esperanças.

Este é o primeiro livro adquirido na Flip, após assistir a uma palestra de Julio, em que ele conta um pouco de sua vida e de como viveu e pesquisou para dar vida a todos os personagens.

Um parágrafo:

"Marcamos encontro para o final da tarde do dia seguinte, o que, em sua opinião, seria o bastante para que fizesse uma avaliação do quadro de Laís. Se quisesse colaborar, o tratamento com certeza seria eficiente, pois uma das vantagens da dependência química como doença é que a próxima dose é uma decisão pessoal. Podemos dispor dos piores médicos do mundo e, no entanto, nos manter abstêmios. Por outro lado, nem mesmo o Prêmio Nobel de Medicina pode nos salvar quando não estamos dispostos a largar o canudo."


Autor: JULIO LUDEMIR
Editora: ROCCO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Flip - uma imersão


 Estar lá, no meio de tantos debates, mesas literárias, outras nem tanto, lançamentos de livros, resgate da infância com Bia Bedran, conversas com livreiros queridos, palestras sobre planos de livros e leitura foi como estar em outra dimensão, onde a cultura e os livros são discutidos, pensados e expostos em primeiro plano, fundamentalmente.

“Meu percurso literário é feito de leituras e releituras, sendo que as releituras são mais ricas do que as leituras.” Luiz Alfredo Garcia-Roza


 “Sou antes de mais nada um poeta que conta histórias.” Mia Couto

"Creio que uma forma de felicidade é a leitura." Jorge Luis Borges

"Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias." Mário Vargas Llosa

Pensar o livro é pensar em futuro, trazer ao mundo mentes criativas e inteligentes, é ponderar sobre o que 'pode ser'.










"Livro não enguiça." Millôr Fernandes

Festa Literária Internacional de Paraty, até a volta!

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Barca das letras

Queridos, divulgando esse trabalho maravilhoso (Pela querida Roberta Fraga):

Meu amigo Jonas Banhos está precisando de uma força ($$). Ela é o Palhaço Ribeirinho que leva alegria, livros, materiais e suportes para comunidades afastadas no norte e nordeste do país e também comunidades locais!
Vocês podem conferir o trabalho pelo perfil dele no Facebook e no www.barcadasletras.blogspot.com

Acontece que ele é servidor licenciado e os recursos que ele junta durante um ano para exercer a atividade junto às comunidades estão acabando.

Seja um investidor do Barca das Letras. Ajude quem ajuda o outro!

Quem quiser e puder!
Entre em contato diretamente com ele!

Quanto a mim, Roberta Fraga, continuo arrecadando livros (em bom estado de conservação) e materiais escolares (novos ou usados).

ligue para (61) 8167 1254 Tim Brasília ou
(91) 8968 1798 Tim Belém
barcadasletras@gmail.com
jonasbanhosap@gmail.com ou
@jonasbanhos (twitter)
https://www.facebook.com/pages/Barca-das-Letras-NossaCasa-de-Cultura-e-Cidadania/145617575484649
Jonas Banhos (facebook)
Idealizador e Cuidador Geral da Barca das Letras

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Ninguém faz ideia - palavracantada

E eles vêm com uma genialidade dessas! Música brasileira, só você consegue a riqueza em essência. :) Obrigada, Lenine / Ivan Santos.



Malucos e donas de casa
Vocês aí na porta do bar
os cães sem dono, os boiadeiros
as putas Babalorixás

Os gênios, os caminhoneiros
Os sem terra e sem teto, atores, maestros, djs
os undergrounds, os megastars, os rolling stones e o rei

ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,

Ciganas e neo – nazistas, o bruxo, o mago pajé
os escritores de science fiction
quem diz e quem nega o que é
Os que fazem greve de fome
Bandidos, cientistas do espaço
os prêmios nobel da paz
o Dalai Lama, o Mister Bean, burros, intelectuais

Eu pensei: ninguém faz ideia de quem vem lá,
de quem vem lá, de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os líderes de última hora
os que são a bola da vez
os encanados, divertidos
os tais que traficam bebês
o que bebe e passa da conta
os do cyber espaço, a capa do mês da playboy
o novo membro da academia
e o mito que se auto destrói

Eu sei: ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os duros, os desclassificados, a vanguarda e quem fica pra trás
Os dorme sujos, os emergentes, os espiões industriais
os que catam restos de feira, milicos piratas da rede,
crianças excepcionais
Os exilados, os executivos, os clones e os originais

É a lei ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os anjos, os exterminadores
Os velhos jogando bilhar, o Vaticano, a CIA,
o boy que controla o radar, anarquistas,
Mercenários, quem é e quem fabrica notícia
quem crê na reencarnação, os clandestinos,
os ilegais, os gays, os chefes da nação
Ninguém faz ideia de quem vem lá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O apartamento de baixo

Nara é uma garota de 22 anos, moradora de um bairro de classe média alta na zona sul do Rio de Janeiro, que sofre com um namoro falido. Sua mãe, preocupada com a saúde emocional da filha, torce para que o namoro tenha logo um fim. As esperas em vão na portaria do seu prédio a fazem descobrir que seu porteiro é um leitor ávido e possui em seu apartamento centenas de obras de literatura.
Nas reviravoltas que o mundo dá, Nara descobre os livros, o amor, a angústia que muitas vezes ele traz, a ânsia de descobrir nos livros a melhor forma de encontrá-lo.

Bárbara Caldas tem em seu livro de estreia o sucesso da palavra. Ganhou texto de Luis Fernando Veríssimo na orelha e concordo com ele em gênero, número e grau: "Um pequeno livro. Um grande começo."

Parabéns, Bárbara, sucesso nessa linda trajetória, de contar a vida, o cotidiano e a arte de viver nas páginas de um livro.

"- Como é triste a ignorância.
- Cuidado, já houve quem dissesse o contrário, que na ignorância se é feliz. - Nara escutava com as pupilas dilatadas. - Eu, humildemente, penso que tudo tem um preço."

Autor: CALDAS, BARBARA
Idioma: PORTUGUES
Editora: MAR DE IDEIAS
ISBN: 9788568079003

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A culpa é das estrelas

Um livro juvenil com o peso de um drama daqueles. O best-seller da atualidade. Acho que isso diz bastante coisa a respeito da nova geração. Os jovens não compram mais os finais felizes como antigamente. Bom ou ruim? Não dá para saber, mas achei importante ler o livro que comecei a perceber que até pessoas do meu círculo que não leem o estavam devorando.

O autor consegue dar leveza à personagem principal, Hazel, que conta sua história de paciente terminal com o olhar adolescente que é. Sua vida dá uma reviravolta quando, ao comparecer muitíssimo a contragosto a um Grupo de Apoio a Crianças com Câncer por insistência de sua mãe, ela conhece Augustus Waters e os dois vivem o fim dessa história com parceria e aventura. Eles conseguem suavizar o drama na maior parte do tempo, deixando a dor que o câncer carrega para o tempo certo, na medida que deve ser vivido.

Alguns trechos:

"Faltando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte."

“Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos.”

"Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo."

Autor: GREEN, JOHN
Editora: INTRINSECA
ISBN: 9788580572261

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Melancia

Claire tem apenas 29 anos. Recém-mãe, recém-separada, recém-descobridora de uma traição absurda, entende que deve dar três passos para trás e se reavaliar, mas, antes disso, precisa ir ao fundo do poço, e encontrar a tal mola que dizem por aí existir lá embaixo.

A narrativa é em primeira pessoa, para que possamos entender a alma da mulher em momentos-limite. E Claire possui uma alma leve, inteligência aguçada e aquela sensibilidade instintiva da natureza feminina. Mas está doída, em carne viva, se sentindo uma verdadeira melancia por causa do pós-parto, e com um bebê para cuidar, sozinha. Nada fácil. Ela nos convoca a acompanhá-la em sua montanha-russa e entendendo por que as mulheres precisam ser tão resistentes e sensíveis. Porque é necessário. Porque sim, e pronto. Porque somos assim, graças.

É, sim, um desses livros que chamamos 'mulherzinha', em que mergulhamos no íntimo de Claire e nos identificamos, tendo passado pelo que ela passou, ou não.
Adorei.

Alguns trechos:

"Quem é o encarregado aqui? Gostaria de me queixar da minha vida. Claramente, pedi uma vida feliz, com um marido amoroso, para combinar com meu bebê recém-nascido, e que falsificação grotesca era aquela que me ofereciam?"

"Queria que minha vida fosse como um jogo de computador. Se tomar a decisão errada, perco uma vida. Se tomar a decisão certa, ganho pontos. Só queria saber. Só queria ter certeza."

"Soube então, que a vida não respeitava circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade!"



ISBN: 9788528609165
Autor: KEYES, MARIAN
Editora: BERTRAND BRASIL