quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O vilarejo

"Em narrativas que exploram as profundezas mais sombrias da alma humana, Raphael Montes narra com destreza a velha disputa entre o bem e o mal, a vida e a morte, a tentação e a salvação."

Um livro dinâmico e macabro. Raphael Montes reúne neste livro uma série de contos de terror com personagens interligados, todos moradores do mesmo vilarejo. Não há cronologia, portanto, vemos personagens transitarem em diversos contos com diversas idades. Assim o leitor se depara com o mesmo personagem sob as mais variadas perspectivas.

Um vilarejo desaparecido do mapa. Um caderno com ilustrações sinistras de uma mulher chamada Elfrida Pimminstoffer, com texto escrito em cimério, foi parar nas mãos de um dono de sebo em Copacabana. Tudo isso como prefácio extraído da enorme e excepcional imaginação do autor. A partir daí, Raphael se denomina como mero tradutor dos escritos.

Capítulo à parte para Marcelo Damm, dono das ilustrações amedrontadoras do livro. Ele conseguiu absorver a palavra do autor e a essência da trama com excelência. Para quem gosta do gênero terror, Raphael Montes veio em seu romance de estreia no gênero mostrando que chegou para ficar.

Para dar um gostinho:

"- O que você fez?
F* acaricia a cabeça da jovem M*, espetada por um garfo de quatro dentres.
- Viram, crianças? O papai trouxe comida. Não vamos mais passar fome. - diz. Rói um dedinho tostado que restou em seu prato. - Ora, querido, venha dar um beijo nos seus filhos. Hoje é um dia especial... Vou preparar um banquete para o jantar!"

Editora: SUMA DE LETRAS BRASIL
Assunto: Literatura Nacional - Suspenses

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Menino do Mato

Sobre literatura:

"Eu queria fazer parte das árvores como os pássaros fazem.
Eu queria fazer parte do orvalho como as pedras fazem.
Eu só não queria significar.
Porque significar limita a imaginação.
E com pouca imaginação eu não poderia fazer parte de uma árvore.
Como os pássaros fazem.
Então a razão me falou: o homem não pode fazer parte do orvalho como as pedras fazem.
Porque o homem não se transfigura senão pelas palavras.
E isso era mesmo."

"...Eu queria que minhas palavras de joelhos no chão pudessem ouvir as origens da terra."

"Visão é recurso da imaginação para dar às palavras novas liberdades?"

"Eu sustento as palavras com o silêncio do meu abandono."

"Escrever o que não acontece é tarefa da poesia."

"Eu só faço travessuras com palavras. Não sei nem me pular quanto mais obstáculos."

Terminei hoje esta pérola! Foram 48 horas de puro deleite, poesia líquida, aerada, certeira, perfeita! Manoel de Barros lançou este livro pela primeira vez em 2010, do alto de seus 94 anos, mas ainda com alma de menino, menino do mato.

Que as palavras desse poeta estejam sempre em nossas vidas, corações, sentidos. Que renasçam muitos Manoéis pelo mundo. Que a vida mostre pelas palavras a beleza do natural, irreal, imaginário.

Autor: BARROS, MANOEL DE
Editora: ALFAGUARA BRASIL


quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Rei do Inverno

Por Bruna Bonfeld

Bernard Cornwell, que é amigo de outro escritor muito conceituado, George Martin, da série Game of Thrones, tem talvez uma escrita mais envolvente que o último (tcharãn, joguei a polêmica, mas tenho o direito de expressar minha opinião rs). PS: No devido tempo irei falar da minha relação de amor e ódio com Game of Thrones, mas isso fica para um outro papo.

"O rei do inverno" é um romance baseado nas lendas e crônicas do lendário Rei Artur através da perspectiva de seu soldado mais fiel, o personagem Derfel. Apesar de ser um romance histórico, Bernard Cornwell se utiliza de algumas fontes históricas para dar maior embasamento à sua escrita. No final do livro, na "Nota do autor". Cornwell explica a imprecisão das fontes sobre a existência desse Rei Guerreiro que comandou incríveis vitórias contra a invasão saxã no final do século VI d.C; além de dar dicas sobre onde na narrativa ele se utilizou mais da imaginação do que da história propriamente dita.

Na obra "De Excidio et Conquestu Britanniae" do autor Gildas, uma das fontes das quais Bernard Cornwell se utiliza para falar sobre um período conturbado de invasões saxãs na Britannia, hoje conhecida como Inglaterra, essas batalhas são descritas, mas não menciona o Rei Artur. Apesar dessas divergências, nos sentimos completamente impelidos para a história ficcional-mas-com-fundo-de-verdade do autor. Tem de tudo: guerra, romance, drama, religião... pode agradar realmente a todos os tipos de leitores.

Uma leitura associada que fiz há bastante tempo de "As Brumas de Avalon" (que também pode ter uma resenha mais para frente), não deixa claro o conflito Cristianismo X Paganismo que existia na Idade Média.

Neste livro vemos o paganismo como forma cultural intrínseca nas pessoas da época, diferentemente de "As Brumas de Avalon", na qual Morgana, irmã de Artur, trava uma guerra praticamente perdida contra os cristãos desde o primeiro livro de quatro.

Impossível não torcer por Artur desde o início. Ele é o típico herói das histórias épicas, guerreiro, valente, com moral, diplomático, bem apessoado e inteligente. Também é impossível não sentir empatia por Derfel, pois o personagem, apesar de ter vivido em uma época muito mais remota se apaixona, luta, erra, volta atrás em decisões, se culpa, enfim, vive dilemas reais de pessoas boas de coração. Temos portanto os papéis de "vilão/mocinho" bem delimitados.

Para entender ainda mais essa história e esse universo é interessante ler textos paralelos, principalmente e obviamente sobre as lendas do Rei Artur, mas também sobre Idade Média. Se eu puder dar uma indicação de um livro geral sobre Idade Média, de leitura agradável e acessível inclusive para leigos, indicaria "A civilização feudal" de Jérome Baschet.

Espero ter conseguido deixá-los com vontade de ler esse livro, pois realmente vale a pena e já estou ansiosa para ler o segundo da saga: "O inimigo de Deus."

Coleção: CRONICAS DE ARTUR, 1
Autor: CORNWELL, BERNARD
Editora: RECORD

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...


Marina Colasanti
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ler devia ser proibido

- Guiomar de Grammont

“A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.”

terça-feira, 28 de abril de 2015

Se eu ficar

Por Bruna Bonfeld

"Se eu ficar" gerou uma série de sentimentos contraditórios em mim. Tentei ler uma vez e não consegui passar das primeiras páginas. Apesar de enxergar potencial na história não me senti cativada pelo livro, exatamente como tinha acontecido com "Morte Súbita". Como sei que a gente nunca lê o mesmo livro duas vezes resolvi dar mais uma chance. 

Os fãs do livro provavelmente me chamariam de insensível, mas eu demorei bastante para me encantar com a personagem Mia. 

Mia, adolescente tinha uma vida normal. Pais, irmão, avós, tios, primos, um namorado mais velho integrante de uma banda de rock e uma melhor amiga em quem podia confiar. O que diferenciava Mia de outras adolescentes da sua idade era o fato de ser ligada a música clássica e ser violoncelista (artista que toca o instrumento violoncelo). Tudo estava indo relativamente bem, tirando alguns problemas adolescentes ocasionais, até que Mia e sua família sofrem um terrível acidente de carro, que mata seus pais e irmão mais novo e que a deixa em coma. 

A narração acontece na forma dos pensamentos da Mia enquanto estava em coma, sobre lembranças do passado e questionamentos sobre um futuro sem a sua família caso ela resolvesse ficar. A discussão central do livro é a reflexão sobre alma e corpo e até que ponto eles se separam e o quanto de poder Mia teria, enquanto alma, para permanecer viva, se essa escolha seria realmente dela. Sabe aquela polêmica sobre quando uma pessoa está em coma, sem previsão para acordar e sem alteração no seu quadro clínico e ai cogitam (médicos e família) de desligarem os aparelhos? Em nenhum momento a família de Mia pensa nessa possibilidade, mas é uma questão que poderia muito bem ser discutida a partir da leitura desse livro. 

Lendo o que eu mesma estou escrevendo me sinto completamente fascinada por essa história, porém confesso que demorei para entrar de cabeça nela, pois a autora vai liberando aos poucos as informações sobre a vida de Mia antes do acidente, o que faz com que a princípio você não sinta muita empatia por essa garota "introspectiva e solitária como seu violoncelo" (pensamento dela), pelo menos essa foi minha percepção inicial. Como gosto de emoções fortes, as vezes ficava um pouco sem paciência para essa demora em demonstrar os sentimentos da personagem.

Enfim, o fato é que aos poucos fui me envolvendo, envolvendo, envolvendo e quando vi já não conseguia mais largar esse livro. 

Na edição dessa capa ainda tem entrevista com os atores escolhidos para a adaptação do cinema, que eu ainda não vi, e um capítulo do livro "Para onde ela foi", que seria uma continuação. Não consegui ler, não quis ler, já que estava completamente embevecida pela história, por aquela história unicamente e não pude deixar de me perguntar o que eu faria no lugar de Mia. 

O que Mia fez? Ela escolheu ficar? Vocês terão que ler pra saber. 

Autor: FORMAN, GAYLE
Editora: NOVO CONCEITO

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Para ler em silêncio

“No princípio, foi a palavra falada: para cumprir sua profecia, fez-se necessário eternizá-la.”

Para ler em silêncio (Bartolomeu Campos de Queiroz)

Tomei ciência, por meio da leitura, que um dia o universo fora um caos. E veio a palavra – faça-se a luz – para o dia e a noite acontecerem. E assim foi com a terra, os mares e mais o firmamento inteiro. A palavra realizou o que anunciava e transformou a desordem em beleza e movimento. E em sete dias tudo que a nossa palavra alcança nos foi dado de presente. E ainda agora e sempre, nos será permitido reinventar novas palavras na medida em que se torna impossível exaurir a harmonia misteriosa do universo.

Escrever é imprimir a experiência do espanto de estar no mundo. É estender as dúvidas, confessar os labirintos, povoar os desertos. E mais, escrever é dividir sobressaltos, explicitar descobertas e abrir-se ao mundo na ilusão de tocar a completude.

Antes de iniciar meu trabalho, eu respiro o silêncio. No silêncio, leio, em mim, mais e melhor o que ainda está por dizer. O universo é um grande livro aberto e sem texto. Mas como a penumbra, ele se mostra sem se revelar. Ele me anuncia sobre todas as coisas. Desde o antes até o depois. Fala do visível e do invisível, do doce e do amargo, da terra, água, fogo e ar. É um livro que consente tantas leituras quantos são aqueles que vivem nele e têm olhos de escutar. Cada escuta acorda uma suspeita. Mesmo assim sendo, não esgotamos os sentidos que dormem na palavra. O universo não envelhece; ele se rejuvenesce, e sempre pela palavra.

Legendar o universo, eu bem sei, é o primordial ofício humano. Não se resta calado diante de sua desmedida sedução. E sei mais: o olhar acaricia apenas a superfície das coisas. É preciso atravessar as cascas e buscar batizar o ainda intocável pelo olhar. Para tanto, há que libertar a fantasia para que ela faça seu percurso até o “dentro” e derrame a luz da palavra. Só pela fantasia é possível aproximar-se da intimidade das “coisas” e nomeá-las. Depois do olhar, só a fantasia contempla.

A literatura é feita da fantasia concretizada pela palavra. Sem se contentar com o real, a fantasia adjetiva o mundo tendo como estrela-guia a busca da beleza. A literatura confirma que “o belo é bom”. Conversamos com a beleza desprovidos da solidão. Não se está só quando o mais definitivo dos diálogos acontece: o real e o ideal conversam sucessivamente no silêncio de nós.

E o silêncio do mundo nos acorda perguntas que exigem cuidados aos respondê-las, sem ferir seus segredos, protegendo seu alumbramento. Perguntar é querer saber mais. E não se vive sem respostas. Se reinventadas, maiores riquezas se acrescentam ao mundo. Guiada pela fantasia, a literatura não nos rouba a voz, não nos deixa mudos. Liberdade, fantasia e palavra fundam a literatura.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Morte Súbita

Por Bruna Bonfeld

Posso dizer que "Morte Súbita" é um dos livros mais tristes que já li e sinceramente esse é um desfecho pelo qual eu não estava esperando. 

J.K. Rowling, autora também da saga Harry Potter (e quem me conhece sabe que é a minha preferida) e dos romances policiais "O Chamado do Cuco" e o "Bicho da seda" (também fantásticos), mostra toda a sua versatilidade ao escrever Morte Súbita. 

A história se passa no vilarejo de Pagford, uma cidadezinha dentro de Yarvil, mas não submetida a ela. Entre esses dois locais há também o bairro de Fields, no qual reside a população mais pobre e carente. Após a morte de Barry Fairbrother, membro fundamental do conselho de Pagford e grande defensor de melhorias para os moradores de Fields (local onde ele próprio nasceu), todos no vilarejo de Pagford são atingidos direta ou indiretamente. A vida dos personagens se intercruzam e as faces da hipocrisia social ficam bastante evidentes. 

Barry Fairbrother morre de aneurisma (uma veia de seu cérebro é rompida) subitamente, deixando até mesmo seus inimigos políticos desamparados. 

Vencer o início um tanto cansativo do livro, no qual você se vê enredado em questões de picuinhas sociais muito enraizadas, é essencial para descobrir um livro sensível e um enredo surpreendente.
Terminei o livro com aquela sensação de pesar e tristeza, mas também de felicidade ao me deparar com uma literatura tão envolvente.
Super indico! Nota 10! Emoticon smile

PS: Destaque para os personagens Khristal Weedon, adolescente e para seu irmão Robbie Weedon. Extremamente pobres, filhos de uma mãe viciada em heroína, Khristal para mim ganha destaque na sua luta comovente para ficar com o irmão de 3 anos Robbie, que é classificado como "criança em situação de risco" pelo Serviço Social de Pagford. Eles também são profundamente atingidos pela morte de Barry Fairbrother, por Barry ter sempre vontade de ajudar Khristal que também veio de Fields, mesmo bairro pobre que ele. Poderia escrever linhas e linhas sobre essa personagem maravilhosa, cheia de defeitos, mas honesta, batalhadora, sensível e inspiradora que é Khristal, mas como o livro tem diversos personagens com complexidades muito grandes, me resumo a essas poucas palavras e também para que quem for ler o livro consiga descobri-la aos poucos, como eu fiz.

Autor: ROWLING, J. K.
Editora: NOVA FRONTEIRA
Assunto: Literatura Internacional - Romances

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O túnel

Um livro extremamente sensível e que trata da relação entre irmãos de maneira lúdica e atenta. A história é de um casal de irmãos muito diferentes; eles vivem em universos distintos e não conseguem se relacionar. Até o dia que a mãe interfere e convoca os dois para uma mesma tarefa.

No meio do caminho, encontram um túnel e o irmão resolve entrar para saber o que há do outro lado. A irmã, muito medrosa, acha melhor esperar na entrada do túnel. Como o irmão não retorna, ela cria coragem para ir atrás dele e saber o que aconteceu. Essa aventura transforma a relação dos dois, que se tornam cúmplices e amigos.

Lindo livro, com palavra e ilustração de criação de Anthony Browne, autor-ilustrador ganhador do Prêmio Hans Christian Andersen.

"A irmã ficava dentro de casa, sozinha, lendo e sonhando. O irmão brincava lá fora com seus amigos, rindo e gritando, lançando e chutando, bagunçando e rolando."

Autor: BROWNE, ANTHONY
Editora: PEQUENA ZAHAR
Assunto: Infantil

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Reprodução

Um rapaz autodenominado "estudante chinês" é o único narrador desta história, de autoria de Bernardo Carvalho. Um livro de tirar o fôlego, em que conceitos, preconceitos, amores, amarguras, traumas de um único cérebro invade nossa mente.

O "estudante chinês" se preparava para uma viagem à China, para finalmente conhecer sua cultura de essência, segundo ele, mas é preso pela Polícia Federal por um suposto envolvimento com sua ex-professora de chinês que, segundo ele (sempre!!), tinha encontrado por acaso na fila de embarque do mesmo voo. A professora estaria levando uma pequena menina para voltar à terra natal e conhecer seus pais, mas é acusada de tráfico (de drogas? humano?). Como desaparece no meio da confusão com a criança, seu aluno é detido e aí inicia uma torrente de pensamentos, falas, crises etc.

Um personagem caricaturado como intelectual-político moderno: cheio de certezas, jorra-as pela internet nos blogs, redes sociais, um "pesquisador histórico" de Wikipédia, com conceitos preconcebidos tão esdrúxulos que chega a ser engraçado.

Leitura boa, irônica, crítica dessa nova leva de pensadores modernos de sofá, como diz a sabedoria popular. Literatura brasileira de alta voltagem, que nos mostra essa nova nossa tendência.

Autor: CARVALHO, BERNARDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Teatro dos lírios

Por Bruna Bonfeld:

Teatro dos lírios é uma pérola da literatura chinesa, da autora Lulu Wang. Recomendo para quem gosta de uma literatura romântica que foge completamente dos padrões esperados. 

Lian, a personagem principal, é uma menina sensível e inteligentíssima que vive o auge da Revolução Cultural de Mao Tse-Tung, chegando inclusive a ir para um dos campos de reeducação para os "burgueses intelectuais capitalistas" com sua mãe, uma professora universitária de História. O livro é relativamente autobiográfico pois a autora também chegou a ir para um desses campos com sua mãe quando era criança. Além disso, Lian tem uma relação de amor e amizade profunda com Kim, uma menina da terceira casta que estuda na mesma escola que ela antes e posteriormente ao campo, que tem uma realidade social completamente diferente da sua, garota da primeira casta. 

O livro é uma crítica muito inteligente ao comunismo, mistura romance, amizade, relações parentais em uma China de um determinado período histórico. Muito bem escrito, nos transporta, nos envolve e nos faz enxergar para além da nossa própria realidade. 


Com certeza é um dos livros mais fantásticos que eu já li em toda a minha vida. Espero ler outro livro desta autora.
Ufa! rs


Autor: WANG, LULU
Editora: RECORD
Assunto: Literatura Internacional - Romance

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O anjo pornográfico

A vida de Nelson Rodrigues. A cada biografia que leio escrita por Ruy Castro me convenço mais de que ele é um dos melhores biógrafos do país. Este é o tipo de livro que você não consegue parar. Claro que seu personagem principal é digno de uma história eletrizante, mas a forma como o autor conta essa história é o ponto-chave.

Conhecemos por este livro o Nelson-homem, com uma vida marcada por tantas tragédias quanto não seria possível alguém sobreviver. Seus pais produziram catorze filhos geniais, uns mais outros menos, uns mais artísticos, outros mais empreendedores, como é o caso de Mario Filho, o idealizador do que hoje é a paixão nacional: o futebol. Aliás, a vida dos irmãos Mario Filho e Roberto Rodrigues produziriam um livro à parte.

Ruy Castro trouxe à tona uma vida espetacular, de um homem singular, talvez dos mais singulares filhos deste nosso país. É ler e conferir, depois me contem.

Algumas pérolas do mestre da escrita:

"Nelson, passional como uma viúva italiana, achava aquilo um empobrecimento da notícia e passou a considerar os 'copy-desks' os 'idiotas da objetividade'. 'Se o copy-desk já existisse naquele tempo', dizia, 'os Dez Mandamentos teriam sido reduzidos a cinco.'"

Sobre A vida como ela é:
"- Seu Nelson, não deixo minha noiva ler sua seção!
Nelson caiu das nuvens:
- Mas por que, que piada é essa?
- Porque suas heroínas dão mau exemplo.
Nelson respondeu por escrito, na mesma época, em outra parte do jornal:
- Discordo desse ideal de noiva cega, surda e muda diante da vida. Acho que uma moça só deve ser esposa quando está em condições de resistir aos maus exemplos. Considero monstruosa, ou inexistente, a virtude que se baseia pura e simplesmente na ignorância do mal. Cada mulher devia ter um minucioso conhecimento teórico do bem e do mal. Afinal de contas, a virtude é, acima de tudo, opção."

"'Me interessa a pessoa em particular', sempre disse Nelson, 'A História que vá para o diabo que a carregue, e Marx, que vá tomar banho.'"

Sobre a amizade de Nelson e Hélio Pellegrino:

"Os dois sempre tiveram divergências políticas e, na maior parte daqueles anos, isso nunca lhes toldou a amizade. Hélio era um frenético socialista católico, o que Nelson considerava um dilema porque, na sua visão, era impossível ser socialista e católico. E Hélio entendia que o reacionarismo de Nelson era apenas a unção do indivíduo sobre a coletividade. Hélio podia não concordar, mas achava graça na frase de Nelson: 'A massa só serve para parir os gênios. Depois que os pariu, volta a babar na gravata.'"

"E então, senti que a multidão não só é desumana, como desumaniza."

Obrigada, Ruy Castro, por existir.

Autor: CASTRO, RUY
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: Biografias - Teatro

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O paraíso são os outros

Uma menina extremamente inteligente e sensível extrai das suas leituras e observações questionamentos sobre relações, amor, solidão. Por que bichos e humanos precisam viver em casal? Por que existe todo tipo de casal? A menina brinca com sua imaginação a partir dos ensinamentos de sua mãe.
Valter Hugo Mãe se lança no universo infantil de uma garotinha, deixando seus pensamentos fluírem para dentro de nós, leitores. É um arrebatamento de sentidos, sentimentos e emoções, porém com questões e dúvidas de alguém que procura entender o que não se entende. Isso é processo de amadurecimento. Procurar saber os comos, os porquês, os quais é crescer maravilhosamente por dentro.

O livro ainda vem com a contribuição visual de Nuno Cais, artista plástico brasileiro que brinca com esse paraíso que é o outro, manipulando imagens para compor o texto do autor.

Gosto muito de encontrar trechos que me capturam nos livros que leio. Foi difícil esta tarefa em O paraíso são os outros; é tanta poesia e sensibilidade do início ao fim que o livro inteiro captura, mas vou tentar pegar os mais significativos.

"Os bichos só são feios se não entendermos seus padrões de beleza. Um pouco como as pessoas. Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa."

"Leio livros para aprender. Estou sempre apressada. Sou muito mexida. Um dia quero uma coisa, no outro quero tudo. Sofro de um problema de sossego. Não sei o que é estar sossegada. Mais tarde corrijo."

"As pessoas são tão diferentes. Aprecio muito que o sejam. Fico a pensar se me acharão diferente também. Adoraria que achassem. Ser tudo é igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture."

"A tristeza a gente respeita e, na primeira oportunidade deita fora. É como algo descartável. Precisamos usar mas não é bom ficar guardada."

Autor: MAE, VALTER HUGO
Ilustrador: CAIS, NINO
Editora: COSAC NAIFY

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Bisa Bia, Bisa Bel

Em meus estudos teóricos de literatura, encontrei um texto de Aristóteles que fala da diferença entre história e poesia (literatura), em que a primeira narra fatos ocorridos e a segunda aqueles que poderiam ocorrer, que podem vir a ser, e por conclusão dele, de natureza mais importante:

"Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta, por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser histórias, se fossem em verso o que eram em prosa), - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que de nomes aos seus personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Alcibíades ou o que lhe aconteceu." (Poét., IX, 50)

Esse vir a ser é marcadamente de fundamental importância e a literatura é o meio que proporciona isso. Ler abre mentes, desenvolve inteligências, proporciona sensibilidades e cria empatia.

Bem, mas por que eu estou aqui falando sobre Aristóteles e seu vir a ser? Porque ao reler Bisa Bia, Bisa Bel, percebi que foi minha primeira prova concreta desse pensamento aristotélico e, para além disso, revivi o impacto que causou Bisa Bia em mim, que a tornou inesquecível no meu coração infantil.

Bel é uma criança cheia de vida e, um dia, encontrou no meio das coisas de sua mãe uma foto de sua bisavó Beatriz, quando ainda criança. Ela se encanta com aquela menina que é sua bisavó e estabelece com ela, em seu interior, uma linda relação. Ana Maria Machado tem todo o merecimento por tantos prêmios com esse livro. Ela mistura passado, presente, futuro, valores do feminino daquela década de 1980, ditadura, perdas e ganhos, questionamentos de uma menina que pensa nos 'fatos ocorridos' e no que pode 'vir a ser'. 

Alguns trechos:

"...É que Bisa Bia mora comigo, mas não é do meu lado de fora. Bisa Bia mora muito comigo mesmo. Ela mora dentro de mim."

"Mas eu lembrei da história do gigante porque a gente podia contar a história de Bisa Bia assim: dentro do quarto de minha mãe tinha um armário, dentro do armário tinha uma gaveta, dentro da gaveta tinha uma caixa, dentro da caixa tinha um envelope, dentro do envelope tinha um monte de retratos, dentro de um retrato tinha Bisa Bia."

"E então eu soube, eu descobri. Assim, de repente. Descobri que nada é de repente. Dessa vez, a pesquisa do colégio não é só em livros nem fora de mim. É também na minha vida mesmo, dentro de mim. Nos meus segredos, nos meus mistérios, nas minhas encruzilhadas escondidas."

Bisa Bia, Bisa Bel é um livro que a gente vive, não apenas lê. 

Autor: MACHADO, ANA MARIA
Ilustrador: NEWLANDS, MARIANA
Editora: SALAMANDRA

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Contos de São João Marcos

Certamente, a melhor parte de se trabalhar com o livro é o momento de servi-lo.

O Instituto Cidade Viva realizou um trabalho de revitalização das ruínas da extinta cidade São João Marcos e trouxe um pouco da história do lugar com a construção do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Uma das belas ideias foi abrir um concurso de contos literários que tivesse menção ao lugar, fosse apenas citando, fosse em forma de recordações da cidade ou mesmo do Parque.

Tive a grata honra de ser convidada a fazer parte do juri que selecionaria os dez primeiros colocados nesse concurso; foi um dia de intensa leitura, avaliação e classificação. Todos os autores foram extremamente cuidadosos com o lugar e sua história, independente do tema escolhido.

O lançamento aconteceu em outubro e, infelizmente, não pude estar presente. Agora recebo o exemplar com seus dez contos e tenho o prazer de compartilhar com vocês esse apanhado de pequenas histórias em torno de um lugar mágico e místico. Ainda apareço por lá para te conhecer, São João Marcos.

Um pouco dos vencedores, no site Olho Vivo: http://www.olhovivoca.com.br/livros/2880/confira-os-vencedores-do-concurso-cultural-contos-de-sao-joao-marcos/

Mais um pouco do Parque: http://www.saojoaomarcos.com.br/parque.asp




terça-feira, 7 de outubro de 2014

De repente, uma batida na porta

Um livro de contos que você não está acostumado a ver por aí. O autor, Etgar Keret, vai do fantástico ao cotidiano, passando pelo esdrúxulo e surreal numa velocidade que é difícil de acompanhar, literariamente.

O que me chamou atenção neste livro foi, quando vi a capa, tinha uma frase do autor Salman Rushdie, de quem sou fã: "Um escritor brilhante, totalmente diferente de qualquer outro. A voz da nova geração." Minha curiosidade foi maior do que meu interesse menor por um livro de contos, de histórias soltas e descontextualizadas umas das outras. Não que não goste de bons contos, apenas prefiro as histórias mais longas, que me permitem viajar com elas.

Os contos são curtos, porém intensos e profundos, cada um com uma forma diferente de mostrar a essência do autor, mas que está ali, o tempo inteiro, exposta e bem definida. O primeiro trecho escolhi por ser uma espécie de apresentação:

"De todos os meus livros de contos, De repente, uma batida na porta é o mais próximo de meu coração. Porque é o primeiro, e, por enquanto, o único livro que escrevi como um pai. A paternidade é provavelmente a mais incrível e complexa experiência que já tive. Ela preenche cada manhã com medo e esperança, e acrescenta dúzias de pequenas mas comoventes vitórias e derrotas no campo de batalha da sua vida. Mais ainda, o papel de pai, se você respeitá-lo de fato, o força a olhar como se pela primeira vez para si mesmo e suas ações, de um ponto de vista novo, espantado e ligeiramente mais estreito, e a explicar a você e a seu filho este mundo confuso e o porquê de você fazer todas as coisas esquisitas que você faz nele. A maioria dos contos neste livro não está diretamente ligada à paternidade, mas foram todos escritos pelo pai de uma criança curiosa e amada, e por detrás deles está a tentativa de explicar ao meu filho, não menos que a mim mesmo, por que é difícil ser uma pessoa, e por que, diabos, ainda assim o esforço vale a pena."

"..., a vida me parece uma armadilha. Algo em que você entra sem suspeitar, e ela se fecha sobre você. E quando você está dentro, dentro da vida, quero dizer, então não há para onde fugir..."

"Meus olhos começam a se fechar agora. Não só naquele universo, na cama, na floresta, também em outros universos sobre os quais não quero pensar agora. É bom para mim saber que há outro lugar; no coração da floresta, em que adormeço agora feliz."

Autor: KERET, ETGAR
Editora: ROCCO
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - CONTOS E CRÔNICAS

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Três novelas femininas

Um livro com três histórias contadas a partir da perspectiva de três mulheres absolutamente diferentes, mas com a essência de sua época se manifestando de forma bem marcada.

Medo, Carta de uma desconhecida e 24 horas na vida de uma mulher são contos marcados de dor, angústias, fortaleza feminina e aquela sensibilidade maravilhosa das mulheres.

No primeiro conto, a personagem-narradora é uma mulher casada e rica que, se envolvendo em uma relação fora de seu casamento vive as angústias que a faz entrar em colapso, por medo de perder a vida tranquila que levava em seu tranquilo casamento.

O segundo, um lindo conto em forma de carta, escrito por uma mulher à beira da morte para o grande amor da sua vida. À medida que a história vai se descortinando para seu destinatário, mais surpresas vão aparecendo. Um belíssimo suspense.

E por último, 24 horas na vida de uma mulher, uma senhora já no final da vida elege um amigo para confessar todas as suas agruras, retirando assim um peso enorme de sua existência.

Maravilhoso livro. Após cada conto, Alberto Dines, jornalista e biógrafo de Zweig, nos brinda com comentários em textos adicionais,

Trecho da orelha, um resumo da vida do autor:

"Stefan Zweig (1881-1942), nasceu em uma rica família judia, viveu a efervescência cultural de Viena no começo do século XX. Amigo de grandes intelectuais e artistas, desde a Primeira Guerra Mundial tornou-se pacifista. Com a ascensão do nazismo, distanciou-se de seu país natal cada vez mais. Após o início da Segunda Guerra Mundial, refugiou-se no Brasil, mais especificamente em Petrópolis (RJ), onde suicidou-se com a mulher em 1942.

Autor: ZWEIG, STEFAN
Tradutor: LISBOA, ADRIANA
Tradutor: ABI-SAMARA, RAQUEL
Editora: ZAHAR
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - CONTOS E CRÔNICAS

domingo, 14 de setembro de 2014

A verdade sobre o caso Harry Quebert

Um dos romances policiais mais sensacionais que já li. É tensão e mistério da primeira à última página. Daqueles livros que você não faz ideia de como acabará e por isso não consegue parar de ler. Marcus Goldman, o melhor protagonista do mundo.

Depois de estourar com seu livro de estreia, Marcus vira uma celebridade do dia para a noite. Começa a ser pressionado pela editora a escrever o segundo, mas vê sua inspiração ir ralo abaixo. Como costuma dizer, adquiriu a doença dos escritores, a Síndrome da Página em Branco. Então, depois de um período de agonia, resolve procurar seu professor de literatura e mentor, Harry Quebert, sem imaginar que sua vida ia sofrer uma segunda reviravolta ao voltar à cidadezinha onde mora o professor.

A partir daí, Marcus se vê envolvido em uma trama absurda, com Harry sendo acusado de assassinato. O corpo de uma menina de 15 anos, desaparecida em 1975 foi encontrado em seu quintal. Marcus se vê na obrigação de procurar a verdade e defender seu melhor amigo.

Todos os personagens são marcantes e cheios de impacto. Estava saindo do metrô lendo o livro, subindo as escadas lendo o livro (!!), quando ouvi uma voz: "Esse livro é sensacional, eu também andava pelas ruas lendo". Achando que era alguém conhecido, olhei para o lado e vi uma estranha, que não resistiu em comentar. Achei um barato e mais uma prova do quanto o livro é bom.

Um pequeno trecho, uma das pílulas de ensinamento do mestre ao aluno, sobre a arte de escrever um bom romance:

"Um bom livro, Marcus, não se mede somente pelas últimas palavras, e sim pelo efeito coletivo de todas as palavras que a precederam. Cerca de meio segundo após terminar o seu livro e ler a última palavra, o leitor deve se sentir invadido por uma sensação avassaladora. Por um instante fugaz, ele não deve pensar senão em tudo que acabou de ler, admirar a capa e sorrir, com uma ponta de tristeza pela saudade que sentirá de todos os personagens. Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter terminado."

Autor: DICKER, JOEL
Editora: INTRINSECA

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Eugênia e os robôs

Livro sensível sobre Eugênia, uma menina de 11 anos que, apesar de sua aguda inteligência para as artes exatas, possui uma dificuldade enorme para entender o comportamento humano, suas contradições, altos e baixos.

Trecho da orelha: "Para ela os humanos são incompreensíveis: choram quando estão felizes; dizem 'tudo bem' quanto estão tristes."

Essas singularidades da natureza humana deixam Eugênia muito confusa e, por causa disso, não consegue se relacionar com ninguém, nem com os pais, nem com os amigos da escola, professores etc. Assim, a menina resolve usar sua inteligência apurada para construir seus próprios amigos robôs, achando que enfim teria companhia em sua infinita solidão. Essa decisão fará com que ela consiga repensar os valores humanos, talvez até perceber a riqueza do singular.

Um gostinho:
"O problema é que todos os diálogos eram mais ou menos assim quando alguém puxava assunto:
- Oi, Eugênia, tudo bom?
- Não.
E era a mais absoluta verdade. Como poderia estar TUDO bom? Todas as coisas do mundo estavam funcionando perfeitamente? Nada mais ou menos? Nada nem um pouquinho ruim? A pergunta era fácil, a resposta certa devia ser não, certo?
Errado.

Autor: TOKITAKA, JANAINA
Ilustrador: TOKITAKA, JANAINA
Editora: ROCCO
Assunto: INFANTO-JUVENIS

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A confissão da leoa

"Preciso tanto de dormir! Não é descanso que procuro. Quero, sim, ausentar-me de mim. Dormir para não existir."

"De repente, rugidos, gritos e lamentos dissolveram-se no vazio, o mundo afundado aos despedaços: nada mais restava dentro dele. Para tanto esquecer é preciso não ter nunca vivido."

"Muitas vezes ele me dissera: só os humanos sabem do silêncio. Para os demais bichos, o mundo nunca está calado e até o crescer das ervas e o desabrochar das pétalas fazem um enorme barulho."

"Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem que correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr." (Provérbio africano)

"Para mim, Adjiru Kapitamoro (avô) tinha o viver da árvore: sendo chão, já era pertença do céu."

"Andei por abrigos extensos. Mas não encontrei sombra senão na palavra."

"Sábio é o pirilampo que usa o escuro para se acender." (Provérbio de Kulumani)

Bem, começar este post dizendo que Mia Couto é poesia em prosa da mais alta categoria é dizer mais do mesmo? Mas é exatamente o que ele é. Prosa poética personificada em Mia.

Para começar, a história tem dois narradores, um homem e uma mulher, em primeiríssima pessoa cada um e com trajetórias distintas porém entrelaçadas.

Há uma aldeia em Moçambique que está perdendo pessoas por causa de ataques de leões. O político local contrata um experiente caçador para resolver o problema, porém ele se vê envolvido em uma trama maior do que seu trabalho, trama que compreende questões externas, da aldeia e seus místicos moradores, e internas, que carrega dentro de si, em seu âmago.

O caçador, Arcanjo Baleiro é um dos narradores e Mariamar, moradora da aldeia, a outra. Alternando a visão de cada um em capítulos, vamos nos embalando nesta linda e triste história, com uma Moçambique se descortinando à nossa frente, com suas crenças, mística, problemas de ordem política, de gênero e religião. E, premiando tudo isso, a poesia do autor.

Autor: MIA COUTO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A garota que você deixou para trás

Quando minha filha me trouxe este livro e disse: "Mãe, lê que você vai adorar", absorvi a máxima "não julgar o livro pela capa", que no caso não era capa, mas sim o título, e peguei para ler. Não, não é a história de uma adolescente (garota) que foi abandonada pelo namorado em pleno baile (que você deixou para trás) que, traumatizada, resolve contar sua história de dor e solidão. Nada disso.

São duas histórias em uma. E com um intervalo temporal de quase um século. A autora, Jojo Moyes, escreveu um bonito romance que gira em torno de um quadro pintado por Édouard Lefèvre, artista francês, para sua bela mulher Sophie, pouco antes de estourar a 1ª Guerra mundial. Quando é convocado a servir, o quadro é a melhor das lembranças de Sophie, que sofre, junto com sua família, a invasão alemã em sua pacata cidade.

Mulher de fibra e coragem, Sophie nem imagina que sua história passará por tantas reviravoltas.

Século seguinte, a viúva Liv Halston vê sua vida absolutamente transformada, revirada e arrasada por causa desse mesmo quadro. A partir daí, as vidas de Sophie e de Liv estarão entrelaçadas de maneira irreversível.

Amor, guerra, muito sofrimento, esperança, dores absurdas, solidariedade, sentido de família, entendimento do outro. Tudo isso em um romance. Adorei, minha filha, obrigada!

Autor: MOYES, JOJO
Editora: INTRINSECA

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Só por hoje

Como sobreviver ao 'só por hoje'? A eterna luta contra uma doença incurável começa por aí. Como absolutamente todas as coisas na vida, só sabe e entende quem vivencia.

O livro conta a história de Tony, ex-editor de renome, que vê sua vida se desmantelar por causa da cocaína. Amores, amigos de infância, carreira bem-sucedida.

15 anos 'limpo' e Tony se vê envolvido com uma garota de programa viciadíssima e, por acreditar ter reencontrado o amor, procura seguir um dos passos do Narcóticos Anônimos e resolve estender a mão num lance perigoso, que pode o fazer ser arrastado de volta às drogas.

Romance de ritmo envolvente, cadenciado na medida. Julio Ludemir explora o universo das drogas e seu entorno, mostra o funcionamento, para o bem e para o mal, das salas do NA, clínicas de recuperação, sexo.

Com o texto narrado em primeira pessoa, seguimos esse caminho com Tony, sentindo suas angústias, desejos e frustrações, medos e esperanças.

Este é o primeiro livro adquirido na Flip, após assistir a uma palestra de Julio, em que ele conta um pouco de sua vida e de como viveu e pesquisou para dar vida a todos os personagens.

Um parágrafo:

"Marcamos encontro para o final da tarde do dia seguinte, o que, em sua opinião, seria o bastante para que fizesse uma avaliação do quadro de Laís. Se quisesse colaborar, o tratamento com certeza seria eficiente, pois uma das vantagens da dependência química como doença é que a próxima dose é uma decisão pessoal. Podemos dispor dos piores médicos do mundo e, no entanto, nos manter abstêmios. Por outro lado, nem mesmo o Prêmio Nobel de Medicina pode nos salvar quando não estamos dispostos a largar o canudo."


Autor: JULIO LUDEMIR
Editora: ROCCO
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Flip - uma imersão


 Estar lá, no meio de tantos debates, mesas literárias, outras nem tanto, lançamentos de livros, resgate da infância com Bia Bedran, conversas com livreiros queridos, palestras sobre planos de livros e leitura foi como estar em outra dimensão, onde a cultura e os livros são discutidos, pensados e expostos em primeiro plano, fundamentalmente.

“Meu percurso literário é feito de leituras e releituras, sendo que as releituras são mais ricas do que as leituras.” Luiz Alfredo Garcia-Roza


 “Sou antes de mais nada um poeta que conta histórias.” Mia Couto

"Creio que uma forma de felicidade é a leitura." Jorge Luis Borges

"Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias." Mário Vargas Llosa

Pensar o livro é pensar em futuro, trazer ao mundo mentes criativas e inteligentes, é ponderar sobre o que 'pode ser'.










"Livro não enguiça." Millôr Fernandes

Festa Literária Internacional de Paraty, até a volta!

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Barca das letras

Queridos, divulgando esse trabalho maravilhoso (Pela querida Roberta Fraga):

Meu amigo Jonas Banhos está precisando de uma força ($$). Ela é o Palhaço Ribeirinho que leva alegria, livros, materiais e suportes para comunidades afastadas no norte e nordeste do país e também comunidades locais!
Vocês podem conferir o trabalho pelo perfil dele no Facebook e no www.barcadasletras.blogspot.com

Acontece que ele é servidor licenciado e os recursos que ele junta durante um ano para exercer a atividade junto às comunidades estão acabando.

Seja um investidor do Barca das Letras. Ajude quem ajuda o outro!

Quem quiser e puder!
Entre em contato diretamente com ele!

Quanto a mim, Roberta Fraga, continuo arrecadando livros (em bom estado de conservação) e materiais escolares (novos ou usados).

ligue para (61) 8167 1254 Tim Brasília ou
(91) 8968 1798 Tim Belém
barcadasletras@gmail.com
jonasbanhosap@gmail.com ou
@jonasbanhos (twitter)
https://www.facebook.com/pages/Barca-das-Letras-NossaCasa-de-Cultura-e-Cidadania/145617575484649
Jonas Banhos (facebook)
Idealizador e Cuidador Geral da Barca das Letras

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Ninguém faz ideia - palavracantada

E eles vêm com uma genialidade dessas! Música brasileira, só você consegue a riqueza em essência. :) Obrigada, Lenine / Ivan Santos.



Malucos e donas de casa
Vocês aí na porta do bar
os cães sem dono, os boiadeiros
as putas Babalorixás

Os gênios, os caminhoneiros
Os sem terra e sem teto, atores, maestros, djs
os undergrounds, os megastars, os rolling stones e o rei

ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,

Ciganas e neo – nazistas, o bruxo, o mago pajé
os escritores de science fiction
quem diz e quem nega o que é
Os que fazem greve de fome
Bandidos, cientistas do espaço
os prêmios nobel da paz
o Dalai Lama, o Mister Bean, burros, intelectuais

Eu pensei: ninguém faz ideia de quem vem lá,
de quem vem lá, de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os líderes de última hora
os que são a bola da vez
os encanados, divertidos
os tais que traficam bebês
o que bebe e passa da conta
os do cyber espaço, a capa do mês da playboy
o novo membro da academia
e o mito que se auto destrói

Eu sei: ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os duros, os desclassificados, a vanguarda e quem fica pra trás
Os dorme sujos, os emergentes, os espiões industriais
os que catam restos de feira, milicos piratas da rede,
crianças excepcionais
Os exilados, os executivos, os clones e os originais

É a lei ninguém faz ideia de quem vem lá, de quem vem lá,
de quem vem lá,
ninguém faz ideia de quem vem lá,


Os anjos, os exterminadores
Os velhos jogando bilhar, o Vaticano, a CIA,
o boy que controla o radar, anarquistas,
Mercenários, quem é e quem fabrica notícia
quem crê na reencarnação, os clandestinos,
os ilegais, os gays, os chefes da nação
Ninguém faz ideia de quem vem lá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O apartamento de baixo

Nara é uma garota de 22 anos, moradora de um bairro de classe média alta na zona sul do Rio de Janeiro, que sofre com um namoro falido. Sua mãe, preocupada com a saúde emocional da filha, torce para que o namoro tenha logo um fim. As esperas em vão na portaria do seu prédio a fazem descobrir que seu porteiro é um leitor ávido e possui em seu apartamento centenas de obras de literatura.
Nas reviravoltas que o mundo dá, Nara descobre os livros, o amor, a angústia que muitas vezes ele traz, a ânsia de descobrir nos livros a melhor forma de encontrá-lo.

Bárbara Caldas tem em seu livro de estreia o sucesso da palavra. Ganhou texto de Luis Fernando Veríssimo na orelha e concordo com ele em gênero, número e grau: "Um pequeno livro. Um grande começo."

Parabéns, Bárbara, sucesso nessa linda trajetória, de contar a vida, o cotidiano e a arte de viver nas páginas de um livro.

"- Como é triste a ignorância.
- Cuidado, já houve quem dissesse o contrário, que na ignorância se é feliz. - Nara escutava com as pupilas dilatadas. - Eu, humildemente, penso que tudo tem um preço."

Autor: CALDAS, BARBARA
Idioma: PORTUGUES
Editora: MAR DE IDEIAS
ISBN: 9788568079003

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A culpa é das estrelas

Um livro juvenil com o peso de um drama daqueles. O best-seller da atualidade. Acho que isso diz bastante coisa a respeito da nova geração. Os jovens não compram mais os finais felizes como antigamente. Bom ou ruim? Não dá para saber, mas achei importante ler o livro que comecei a perceber que até pessoas do meu círculo que não leem o estavam devorando.

O autor consegue dar leveza à personagem principal, Hazel, que conta sua história de paciente terminal com o olhar adolescente que é. Sua vida dá uma reviravolta quando, ao comparecer muitíssimo a contragosto a um Grupo de Apoio a Crianças com Câncer por insistência de sua mãe, ela conhece Augustus Waters e os dois vivem o fim dessa história com parceria e aventura. Eles conseguem suavizar o drama na maior parte do tempo, deixando a dor que o câncer carrega para o tempo certo, na medida que deve ser vivido.

Alguns trechos:

"Faltando pouco para eu completar meu décimo sétimo ano de vida minha mãe resolveu que eu estava deprimida, provavelmente porque quase nunca saía de casa, passava horas na cama, lia o mesmo livro várias vezes, raramente comia e dedicava grande parte do meu abundante tempo livre pensando na morte."

“Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos.”

"Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai feri-lo."

Autor: GREEN, JOHN
Editora: INTRINSECA
ISBN: 9788580572261

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Melancia

Claire tem apenas 29 anos. Recém-mãe, recém-separada, recém-descobridora de uma traição absurda, entende que deve dar três passos para trás e se reavaliar, mas, antes disso, precisa ir ao fundo do poço, e encontrar a tal mola que dizem por aí existir lá embaixo.

A narrativa é em primeira pessoa, para que possamos entender a alma da mulher em momentos-limite. E Claire possui uma alma leve, inteligência aguçada e aquela sensibilidade instintiva da natureza feminina. Mas está doída, em carne viva, se sentindo uma verdadeira melancia por causa do pós-parto, e com um bebê para cuidar, sozinha. Nada fácil. Ela nos convoca a acompanhá-la em sua montanha-russa e entendendo por que as mulheres precisam ser tão resistentes e sensíveis. Porque é necessário. Porque sim, e pronto. Porque somos assim, graças.

É, sim, um desses livros que chamamos 'mulherzinha', em que mergulhamos no íntimo de Claire e nos identificamos, tendo passado pelo que ela passou, ou não.
Adorei.

Alguns trechos:

"Quem é o encarregado aqui? Gostaria de me queixar da minha vida. Claramente, pedi uma vida feliz, com um marido amoroso, para combinar com meu bebê recém-nascido, e que falsificação grotesca era aquela que me ofereciam?"

"Queria que minha vida fosse como um jogo de computador. Se tomar a decisão errada, perco uma vida. Se tomar a decisão certa, ganho pontos. Só queria saber. Só queria ter certeza."

"Soube então, que a vida não respeitava circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade!"



ISBN: 9788528609165
Autor: KEYES, MARIAN
Editora: BERTRAND BRASIL


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Véu

E aí a gente pensa que o autor se satisfez com uma obra de impacto e suspense na medida, não é? Não. Mais uma vez Luis Eduardo Matta se supera em ritmo, suspense e rapidez de raciocínio. A história viaja do Rio de Janeiro à Arábia Saudita e fala, entre outras coisas, da polêmica vida da mulher muçulmana.

Lourenço Monte Mor cria uma obra intrigante e encantadora ao mesmo tempo, em que retrata uma mulher muçulmana nua, com apenas um transparente véu islâmico a lhe cobrir o corpo e o rosto.

O quadro é motivo de polêmica entre os religiosos mais radicais e, após sua primeira exposição, começam a ocorrer mortes e atentados. Seu criador, Lourenço, é assassinado de maneira drástica e todos acreditam que o quadro incendiara com tantos outros. A família, porém, consegue escondê-lo por bastante tempo.

Araci Quintanilha, tia de Lourenço e proprietária de uma tradicional casa de leilões resolve leiloar O Véu em um evento que atrairia a nata da sociedade carioca. A partir daí começa a reviravolta em sua vida e de sua família, bem como de pessoas ao redor do mundo, de Teerã à Europa, inclusive o assassinato de Abu al-Horiah, líder de uma organização iraniana.

A palavra texto vem do latim (textu) e significa "tecido, entrelaçamento". Foi tudo o que consegui pensar a respeito de O Véu. O autor se apropriou desse significado de texto para criar uma teia de histórias, vidas, mistério, religiosidade, mundo.

Belíssimo livro. Aos aficionados por suspense, link para livraria virtual.

Autor: MATTA, LUIS EDUARDO
Editora: PRIMAVERA EDITORIAL

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sobre meninos e lobos

História triste, pesada, real. Cheguei à metade deste livro em 2003, quando o perdi em um hotel em Brasília. Depois de anos comprei outro exemplar para terminar a história que tinha me tocado tanto.

Jimmy, Sean e Dave eram amigos de infância. A vida os separou e, anos depois, tiveram que se reencontrar e voltar ao passado, lugar onde passaram anos querendo esquecer. Nessa infância pouco longínqua, eles estavam brincando na rua quando um carro parou e dois homens levaram Dave. O Menino que Escapou dos Lobos passou quatro dias desaparecido. Quando voltou, já não era mais a mesma pessoa. Jimmy e Sean também não o foram. Os anos passaram e eles pensavam em como teria sido suas vidas se tivessem entrado naquele carro também ou tivessem impedido que o amigo entrasse.

Já adultos, os três se reencontram em torno da morte da filha mais velha de Jimmy, assassinada brutalmente. A verdade vai se descortinando em suas vidas da forma implacável que costuma fazer quando fugimos dela.

Um livro de alta voltagem. Tenso do início ao fim. 

"... Ele acordava com medo - medo de que Katie rolasse da cama à noite, ficasse numa posição ruim e morresse sufocada; medo de que a economia do país piorasse e ele ficasse sem emprego, medo de que Katie caísse do trepa-trepa na escolinha na hora do recreio; medo de que ela quisesse alguma coisa que não pudesse lhe dar; medo de que sua vida continuasse naquele carrossel de medo, de amor e de exaustão, para sempre."

"A gente sente essas coisas no fundo da alma, em nenhum outro lugar. Às vezes, a gente sente a verdade confusamente, para além de qualquer lógica, e em geral se tem razão, sobretudo quando se trata de uma verdade que não se quer admitir e que não se tem certeza de poder enfrentar. Aí a gente tenta ignorar, procura um psiquiatra ou passa longas horas nos bares, embrutecendo-se na frente da televisão - só para tentar escapar dessas verdades duras demais, feias demais, que a alma intuiu bem antes de a razão se dar conta."


Autor: LEHANE, DENNIS
Tradutor: MACHADO, LUCIANO VIEIRA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - FICÇÃO POLICIAL

terça-feira, 9 de julho de 2013

A revolução dos bichos

Por Bruna Bonfeld


Eric Arthur Blair, com o pseudônimo de George Orwell, nos conta sobre "A Revolução dos bichos", uma obra literária em forma de fábula, sobre bichos que, cansados da tirania dos humanos, que os maltratava e inferiorizava, resolvem fazer uma revolução, em busca da autonomia de todos os animais.

Essa revolução, prevista pelo sábio e respeitado porco da Granja do Solar de fato acontece e os bichos saem vencedores. Entretanto, o lema "duas pernas ruim, quatro patas boas" é substituído por "alguns animais são mais iguais que outros". 

O livro é uma crítica ferrenha ao ideal comunista. Crítica ferrenha e inteligente, para fácil compreensão de que a busca e a sede pelo poder sempre ocorrerá. 

Apesar de poder ser lido por um público leigo, o livro privilegia aqueles que têm algum conhecimento histórico sobre Revolução Russa.

Autor: ORWELL, GEORGE
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O palhaço e sua filha

Literatura turca, escrita por Halide Edip Adivar, autora feminista nascida em 1884, que passou a vida inteira em Istambul e conseguiu lutar por liberdade sem perder o respeito por sua crença.

O livro conta a história de Rabia, desde antes de seu nascimento. A mãe, religiosa fanática se apaixona pelo sobrinho e herdeiro do dono do mercado do bairro Sinekli-Bakkal. Tevfik é carismático e seu talento para o teatro pulsa dentro de si como tudo aquilo para o qual o destino chama o ser humano. O casamento deles não dura, pois a arte que mora em Tevfik o impede de mudar de essência como sonha sua maníaca esposa. Separam-se antes do nascimento de Rabia, que passa a infância em companhia da mãe e do avô, religioso ortodoxo. Seu pai torna-se exilado por ordem do paxá. Ainda criança aprende o ofício de Recitadora do Corão, prática muito incentivada pelo avô. Assim, sua vida começa a mudar, quando ela é solicitada para recitar o Corão em lugares públicos e residências, como a casa do paxá Selim, onde sua esposa se toma de amores por Rabia. Ali ela conhece um mundo absolutamente oposto ao que tinha vivido até então. Com sua aguda inteligência, percebe ao seu redor tudo o que precisa e deseja para viver de acordo com seu eu. Sua vida é marcada por essa família que, de um lado, a aterroriza com base na religião e, de outro, a torna livre e dona de seu destino.

A autora passeia por um período pré-revolução (1908) e retrata uma Istambul cheia de vida e contradições. Maravilhoso livro.

"... Osman ia adorar tudo aquilo. Mas ela estava se sentindo um pouco sozinha. Rabia sentia falta da pequena rua; ela estava acostumada a fronteiras palpáveis de definidas; esse horizonte nebuloso e elusivo a assustava. Não havia nenhum movimento nele. Nessa hora, as pessoas em sua rua estariam indo para a mesquita ou visitando um ao outro. Essa mudança de ares lhe deu a sensação de ter dobrado uma esquina em sua vida. Não gostava de esquinas. No instante em que se vira uma esquina, torna-se outra pessoa. Nunca se pode livrar-se de seu eu anterior, então se fica acumulando um eu sobre o outro, de modo que o mais recente fica em cima."

Autor: ADIVAR, HALIDE EDIP
Editora: PLANETA DO BRASIL
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES